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Grupo Fictor inflacionou Master dias antes da compra

Sócios da Fictor inflacionam capital em R$ 3 bilhões exatamente no dia da proposta de compra do Banco Master

Documentos societários revelados pelo Valor Econômico mostram que uma empresa ligada aos principais sócios do Grupo Fictor aumentou seu capital social em R$ 3 bilhões no dia 17 de novembro de 2025 – exatamente a data em que a holding anunciou publicamente sua intenção de adquirir o controle do Banco Master, instituição financeira que enfrentava grave crise e foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central no dia seguinte.

A operação ocorreu na companhia então denominada Giuseppe Holding S.A., que foi renomeada para RPR Capital e atualmente se chama GPP Participações S.A.. Os subscritores do aporte foram Rafael Góis (sócio-fundador e CEO do grupo Fictor), Rafael Paixão (sócio e diretor da Fictor Invest) e Luiz Rubini (ex-sócio). Cada um se comprometeu com valores próximos a R$ 1 bilhão: Góis subscreveu R$ 1,02 bilhão, enquanto Paixão e Rubini aportaram R$ 990 milhões cada.

Antes do aumento, o capital da empresa era de apenas R$ 1 mil. O prazo para integralização do montante ia até 31 de dezembro de 2031, e a capitalização foi formalizada em ata de assembleia geral extraordinária realizada às 7h da manhã de 17 de novembro – horas antes de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, se reunir virtualmente com Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do Banco Central, para apresentar a oferta de compra.

O montante anunciado coincidiu exatamente com o valor do aporte imediato prometido na proposta de aquisição do Master, que previa reforço de capital na instituição em dificuldades. Na ocasião, a Fictor divulgou que contava com “investidores árabes” no consórcio, sem detalhar identidades. A narrativa oficial apontava para uma tentativa de evitar a quebra do banco; análises alternativas sugerem que serviu como estratégia para adiar a liquidação extrajudicial, já em andamento no regulador.

Após a prisão de Vorcaro na noite de 17 de novembro (ao tentar deixar o país) e a decretação da liquidação do Master pelo BC em 18 de novembro, o aporte nunca foi efetivamente integralizado. Em 5 de dezembro de 2025, os mesmos sócios desfizeram a operação na GPP Participações, reduzindo o capital de volta para R$ 1 mil. A ata, assinada por Rafael Paixão, justificou que as ações subscritas “não foram integralizadas”.

O episódio se soma à crise que levou o Grupo Fictor a protocolar, nesta segunda-feira (2 de fevereiro de 2026), pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, alegando dívidas totais de R$ 4,3 bilhões. O conglomerado atribui parte das dificuldades à repercussão negativa após o caso Master, que gerou saída de investidores, atrasos em pagamentos e um comunicado enviado a clientes afirmando: “Um ambiente de maior exposição e pressão midiática, aliado a ajustes operacionais decorrentes de relações com fornecedores estratégicos, gerou um desafio temporário de liquidez e de timing operacional”.

Na semana passada, a juíza Maria Lúcia Pizzotti, do TJSP, determinou bloqueio cautelar de R$ 150 milhões em contas da Fictor, citando “risco de insolvência” após a empresa deixar de honrar a conta-garantia da operação de cartões FictorPay desde 19 de dezembro de 2025.

O caso reforça questionamentos sobre a governança e a estrutura financeira do grupo, que opera em segmentos como investimentos via SCPs, FIDCs, alimentos, energia, pagamentos e imóveis. A tentativa frustrada de entrada no setor bancário via Banco Master expôs vulnerabilidades que agora culminam em proteção judicial contra credores.

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