Este é um dado revelador do sistema eleitoral brasileiro: só 28 dos 513 deputados federais se elegeram apenas com os próprios votos (dados de 2022). A grande maioria depende do “puxão” do partido, da federação ou de colegas mais votados (os famosos puxadores de votos).
Isso é ruim para a sociedade, que poder dá a um deputado popular (o “puxador”) e como ele usa isso como moeda de troca — inclusive para trocar de partido. Entenda logo abaixo:
Lista dos deputados eleitos com próprio voto:
Como funciona o sistema :
No Brasil, deputados federais, estaduais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional de lista aberta:
-O partido conquista vagas conforme o total de votos (votos em candidatos + votos de legenda).
-Dentro do partido, as vagas vão para os mais votados.
-Um candidato muito popular (puxador) gera excesso de votos que ajuda o partido a atingir mais “quocientes eleitorais”, elegendo outros candidatos que tiveram poucos votos próprios.
Resultado: você vota em um nome (ex: um pastor, atleta ou celebridade), mas seu voto pode eleger alguém com votação irrisória que você nem conhece. Só uma minoria pequena chega lá sozinho.
Por que isso é ruim para a sociedade?
1-Os eleitos nem sempre são os que votamos:
O voto do eleitor é “diluir” e distorcido. Você escolhe uma pessoa, mas o sistema transforma isso em voto no partido. Muitos deputados entram com poucos votos graças ao puxador ou ao desempenho geral da legenda. Isso enfraquece a ligação direta entre eleitor e eleito — a ideia central da democracia representativa.
2-Reduz a accountability (prestação de contas):
Deputados “puxados” devem o mandato mais ao partido ou ao cacique do que aos eleitores. Eles tendem a ser mais leais ao líder interno do que ao interesse público. Fica mais fácil para eles votarem contra o que prometeram, pois sabem que não dependem diretamente do voto popular para se reeleger.
3-Estimula baixa qualidade e clientelismo
Partidos caçam “puxadores de votos” (celebridades, pastores, jogadores) para inflar a votação total e depois preenchem a lista com aliados, parentes ou pessoas sem expressão. O foco vira lealdade ao grupo, não competência ou ideias. Isso gera uma Câmara cheia de deputados medianos ou dependentes.
4-Fortalece o personalismo e enfraquece partidos
A política vira disputa de figuras fortes em vez de programas coerentes. Partidos viram “veículos” para ambições pessoais, o que aumenta fragmentação, instabilidade e dificuldade de governar com maioria sólida.
No fim, a democracia fica mais fraca: o eleitor tem menos poder real, e o sistema favorece máquinas políticas em vez de representação genuína.
Que força isso dá para um deputado (especialmente o puxador)?
Um deputado com grande votação pessoal (ex: 100-300 mil votos) vira um ativo valioso. Ele não é só um parlamentar — é um gerador de vagas.
*Dentro do partido:
-Tem poder de barganha enorme. O partido depende dele para conquistar mais cadeiras.
-Pode exigir cargos de liderança, presidência de comissões, indicações de cargos públicos, fatia maior do fundo partidário e eleitoral, etc.
-Influencia quem entra na chapa: decide apoios, ordem na lista ou até quem é “puxado” junto.
-Funciona como “dono de bancada”: os deputados que ele ajudou a eleger tendem a segui-lo, criando um bloco interno leal.
*Fora do partido (troca de legenda):
Aqui é onde o poder fica mais perigoso. Durante a janela partidária (período no final do mandato em que deputados podem trocar de partido sem perder o mandato), o puxador vira uma moeda de troca valiosa.
-Ele pode barganhar com outro partido: “Eu migro e trago meus votos. Em troca, vocês me dão posição privilegiada na lista, mais verba de campanha, apoio aos meus projetos e até chance de cargo maior (prefeitura, governo, etc.)”.
-O novo partido ganha: mais vagas na próxima eleição graças aos votos que ele puxa.
-O partido antigo perde: fica enfraquecido eleitoralmente.
-Isso vira um mercado: partidos pequenos ou em expansão pagam caro por puxadores famosos. O deputado usa a ameaça de saída como pressão constante.
Esse “troca-troca” constante torna a política mais oportunista: o deputado não precisa ter fidelidade ideológica ou programática. Ele vende seu capital eleitoral para quem oferecer mais vantagens. O resultado é instabilidade partidária, falta de coerência e políticos que mudam de lado conforme o vento.
Esse sistema cria um círculo vicioso: eleitores votam em pessoas → votos ajudam a eleger outros → esses outros ficam leais ao puxador → o puxador ganha poder desproporcional dentro e fora do partido → usa isso para barganhar, trocar de legenda e perpetuar o jogo.
É ruim porque desconecta o voto popular da representação real, incentiva personalismo, clientelismo e baixa qualidade legislativa. Muita gente defende reformas (voto distrital misto, lista fechada, fim das coligações, etc.) exatamente por isso.


















