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Incursão silenciosa da China na América Latina

De investimentos praticamente irrelevantes no início dos anos 2000, a China se transformou em um ator de peso na América Latina e no Caribe, alcançando um volume de comércio superior a 500 bilhões de dólares em 2024. Para diversos países, a exemplo do Brasil e do Peru, a China já superou os Estados Unidos e se consolidou como o principal parceiro comercial.

“O Partido Comunista Chinês está jogando a longo prazo na América Latina”, afirmou Ding Hung-bin, vice-reitor da Sellinger School of Business and Management da Universidade Loyola de Maryland, em entrevista ao The Epoch Times.

Segundo Ding, com a entrada volumosa de recursos financeiros, Pequim conquista influência política, esperando o momento oportuno para confrontar a ordem global comandada pelos Estados Unidos. Depois de vinte anos, declarou ele, “o fogo chegou à porta dos EUA”.

Washington agora sinaliza que essa situação não pode prosseguir. Na estratégia de segurança nacional publicada em novembro, a administração Trump elevou a região à condição de prioridade máxima, classificando-a como um “grande erro estratégico americano das últimas décadas” por ter permitido que “concorrentes não hemisféricos” se instalassem no Hemisfério Ocidental.

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A nova estratégia de segurança nacional dos EUA destaca que a passividade dos anos anteriores trouxe prejuízos graves aos Estados Unidos, tanto “economicamente no presente” quanto “estrategicamente no futuro”.

Algumas semanas depois da publicação da estratégia, as forças dos EUA capturaram o ditador venezuelano Nicolás Maduro, interrompendo a aproximação crescente do país com a China.Poucas horas antes da prisão, Maduro havia recebido um representante chinês no palácio presidencial. Ele aceitou um vaso de porcelana como presente, posou para fotos ao lado da delegação chinesa e, em seguida, publicou nas redes sociais que o encontro reforçava os “fortes laços de fraternidade” entre as duas nações, “na alegria e na tristeza”.

Estratégia Digital

Em setembro, Maduro exibiu com satisfação um smartphone Huawei dobrável vermelho, que utilizava todos os dias — um presente recebido diretamente do presidente chinês Xi Jinping.

Nicolás Maduro presume su nuevo Huawei

Ele o descreveu como o “melhor telefone do mundo”.“Os americanos não aguentam”, afirmou aos jornalistas.

Para a China, aquele instante representou uma confirmação importante na disputa do regime pela liderança tecnológica global, tendo a Huawei como principal protagonista.

Colocada na lista de entidades restritas pelos Estados Unidos, a gigante chinesa de telecomunicações tem ampliado sua atuação em diversas regiões das Américas. Ela está à frente da Rota da Seda Digital, componente essencial da Iniciativa Cinturão e Rota de Pequim, um ambicioso plano multibilionário destinado a ampliar o alcance e a influência do regime em escala mundial.A solução de armazenamento em nuvem da Huawei já cobre todos os países da América Latina, registrando o ritmo de expansão mais acelerado entre as companhias do setor de telecomunicações.

A relevância dessa presença se tornou clara quando, em 2020, o Brasil tentou impedir a participação da Huawei em suas redes 5G por questões de segurança nacional. Naquele momento, a infraestrutura de telecomunicações brasileira já incorporava profundamente a tecnologia da empresa, e removê-la demandaria investimentos na casa dos bilhões de dólares.

A Huawei não atua sozinha: segundo a Canalys, marcas chinesas de smartphones já controlam mais de 60% do mercado na América Latina.No Equador, o sistema ECU911, de fabricação chinesa, conecta câmeras de vigilância nacionais a um centro policial com milhares de agentes, abrangendo desde trânsito até segurança nacional. Xi Jinping o classificou como “cartão de visitas da colaboração de alta tecnologia entre a China e a América Latina”.Pela lei chinesa, empresas devem entregar qualquer informação ao Partido Comunista quando exigido, o que torna sua presença preocupante, segundo Evan Ellis, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Colégio de Guerra do Exército dos EUA.Com tantos dados gerados em empresas, fábricas e lares, o ponto central é onde eles são armazenados, explicou ele ao The Epoch Times. A adoção de tecnologias chinesas em órgãos governamentais pela região, acrescentou, “expõe os funcionários do governo à chantagem”.

Investimentos ‘predatórios’

Pequim resume sua visão com o conceito de “comunidade China-América Latina com um futuro compartilhado”.Xi Jinping foi quem lançou o termo, em discurso no Congresso Nacional do Brasil em 2014, ao comparar a relação bilateral ao vinho: algo que “fica melhor com o tempo”.

A estratégia busca “reconstruir desde as raízes, unindo as 33 nações da América Latina e do Caribe à China, mantendo os Estados Unidos de fora”, explicou Florencia Huang, especialista em estudos latino-americanos da Universidade Tamkang, em Taiwan, ao The Epoch Times.

Sob esse lema, mais de 20 países da região aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota, gerando centenas de projetos de infraestrutura.

COSCO Shipping To Buy $2.7B Port Assets From Parent.

Destaque para o Porto de Chancay, investimento de US$ 1,3 bilhão a cerca de 80 km de Lima: um porto de águas profundas em 180 hectares, principal hub logístico chinês no Pacífico sul-americano. Sua localização estratégica encurta pela metade o tempo de navegação até a China e facilita o acesso a minerais vitais para a indústria chinesa.

A COSCO, gigante estatal chinesa de transporte marítimo, tem exclusividade operacional por 30 anos. Em 2024, a autoridade portuária peruana alegou “erro administrativo”, mas não conseguiu reverter o contrato — o Congresso aprovou ajustes que o validaram.Em janeiro de 2025, um tribunal peruano limitou ainda mais a fiscalização estatal sobre o terminal. Os EUA advertiram que o Peru arrisca perder soberania sobre “infraestrutura crítica em seu próprio território” para “proprietários chineses predatórios”.“Que isto sirva de alerta para a região e para o mundo: dinheiro chinês barato custa soberania”, declarou o Departamento de Estado americano, via Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, em comunicado de fevereiro.

Uma ampla rede de pesca

No deserto da Patagônia argentina, protegida por uma cerca de arame farpado de 2,5 metros, uma instalação chinesa ligada à força de apoio estratégico do Exército Popular de Libertação gerencia uma estação espacial remota, com acesso externo apenas mediante agendamento prévio.

A cerca de 160 km da costa da Flórida, quatro instalações em Cuba — supostamente conectadas à China — contam com antenas e equipamentos para coletar dados sobre os EUA, conforme análise de imagens de satélite. Pelo menos uma delas recebeu atualizações em 2025 que podem ampliar bastante suas capacidades de vigilância, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

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Além da coleta secreta de inteligência e de instalações de uso duplo, a China busca vantagens por meio de laços pessoais mais visíveis e eficazes.De acordo com a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, altos oficiais militares chineses visitaram a região centenas de vezes nas últimas duas décadas, acompanhados de intercâmbios, exercícios conjuntos e vendas de armas.Pequim oferece incentivos como treinamentos gratuitos, voos em classe executiva e hospedagem em hotéis de luxo para oficiais militares latino-americanos, conforme estudo de 2022 do Pentágono divulgado pelo think tank RAND.

Pelo programa estatal “Ponte do Futuro”, mais de mil políticos e “jovens líderes” latino-americanos foram levados à China, segundo registros oficiais chineses.Em maio de 2025, o chanceler Wang Yi anunciou que Pequim planejava convidar 300 delegados latino-americanos por ano nos três anos seguintes.Esses esforços surtiram efeito.Um funcionário do Congresso hondurenho, em 2023, durante visita a uma aldeia de “turismo vermelho” do Partido Comunista Chinês, elogiou a campanha anticorrupção chinesa à mídia estatal, chamando-a de “milagre na história da humanidade”.

Na imagem abaixo, o petista Lula da Silva fala durante a cerimônia de abertura da Quarta Reunião Ministerial do Fórum China-Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em Pequim, no dia 13 de maio de 2025. AFP/Gatty Images

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Outros depoimentos incluem um coronel argentino defendendo a Iniciativa Cinturão e Rota e um major-general creditando as medidas chinesas contra a COVID-19 por “ter ganho de tempo para o Ocidente”.O valor atribuído pela China a esses programas é evidente em documentos oficiais alinhados à Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Ao analisar o material, Ellis se impressionou com “a quantidade de programas diferentes disponíveis para pessoas em todos os níveis”.“Os chineses lançaram suas redes de pesca muito amplamente”, disse ele.

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