Amizade Lula-Maduro: Aliança de décadas em evidência
No momento em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, vê sua elegibilidade ameaçada por um inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposta calúnia contra o petista Lula da Silva, ganha força um paralelo incômodo: a longa e sólida amizade entre Lula e o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Enquanto o sistema usa uma postagem nas redes sociais como pretexto para afastar Flávio das urnas de outubro, a ideologia de esquerda que une Lula e Maduro desde o início dos anos 2010 permanece intocada e, para muitos analistas, explica o timing da ação judicial.
A amizade entre Lula e Maduro não é recente nem superficial. Ela remonta a 2013, quando Lula gravou vídeo pedindo votos para Maduro, então sucessor de Hugo Chávez na Venezuela. Desde então, os dois líderes se encontraram diversas vezes em agendas bilaterais, cúpulas sul-americanas e encontros privados.
Registros públicos confirmam reuniões marcantes, como a de maio de 2023 no Palácio do Planalto – classificada por Lula como “momento histórico” – e outra em março de 2024, durante cúpula da Celac no Caribe, onde discutiram eleições venezuelanas e acordos bilaterais.
Mesmo com a prisão de Maduro em operação militar internacional no início de 2026, a relação histórica continua sendo citada em análises políticas. Ambos compartilham a mesma ideologia de esquerda – frequentemente descrita como comunista ou socialista do século XXI –, com defesa de integração regional, críticas ao “imperialismo” americano e políticas econômicas intervencionistas.
Lula sempre defendeu Maduro publicamente, chamando sanções internacionais de “pior que uma guerra” e negando as evidências sobre falta de democracia na Venezuela.
Agora, esse histórico ganha novo contorno com o caso Flávio Bolsonaro. O senador publicou nas redes sociais uma imagem associando Lula a Maduro, acompanhada de texto que mencionava crimes como “tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”. A postagem foi feita logo após a prisão de Maduro e, segundo Flávio, limitava-se a “noticiar fatos” sobre os processos internacionais contra o venezuelano.
Dois dias atrás, o ministro Alexandre de Moraes determinou à Polícia Federal a abertura de inquérito para investigar suposta calúnia. Especialistas em direito eleitoral afirmam que uma eventual condenação por crime contra a honra (calúnia) em órgão colegiado pode suspender os direitos políticos de Flávio, tornando-o inelegível pela Lei da Ficha Limpa e impedindo sua candidatura em 2026 – seja à Presidência ou à reeleição ao Senado.
Flávio reagiu com “estranheza” e classificou a medida como “juridicamente frágil”, argumentando que se trata de cerceamento à liberdade de expressão. Para apoiadores do senador, a ação não é mera coincidência: seria uma estratégia do “sistema” para eliminar um forte concorrente de Lula nas eleições presidenciais de outubro, justamente explorando a proximidade ideológica entre o petista e Maduro – o mesmo Maduro que Flávio citou na postagem.
Para quem acompanha a política brasileira, um padrão é claro: enquanto laços ideológicos de longa data entre Lula e Maduro são tratados como “política externa normal”, críticas pontuais feitas por opositores são investigadas com rapidez e potencial para alterar o tabuleiro eleitoral.
A amizade Lula-Maduro, construída ao longo de mais de uma década e marcada por dezenas de contatos diretos e indiretos, segue como pano de fundo de um debate que mistura ideologia, Justiça e poder.


















