Oito em cada dez lares brasileiros estão endividados; alta dos juros, facilidade de crédito, apostas pela internet e emprego instável formam “tempestade perfeita” que sufoca o orçamento das famílias
O Brasil alcançou a marca alarmante de 81 milhões de inadimplentes — o maior patamar da série histórica —, em um cenário em que cerca de 80% dos lares carregam algum tipo de dívida. Segundo dados oficiais, o volume total de dívidas pessoais ultrapassa os US$ 900 bilhões, equivalente a 35% do PIB brasileiro.

Um terço da renda das famílias é consumido apenas para pagar prestações, empréstimos, contas de luz, telefone ou financiamentos. Muitos recorrem a novo crédito apenas para quitar dívidas antigas, criando um ciclo vicioso de endividamento.
O alto nível de endividamento ajuda a explicar por que bons indicadores macroeconômicos — como desemprego em 5,8% (mínimo histórico) e renda média em alta — não se refletem no dia a dia da população. Os juros continuam elevados (taxa básica em torno de 15%) para controlar a inflação, o que encarece o crédito e preocupa o governo federal a poucos meses das eleições.
O petista Lula da Silva tem atribuído parte do problema ao “dinheiro caro” e às apostas pela internet.
“Entrou um cassino em cada casa pelo celular”, diz o petista.
A explosão de apostas online, aliada à bancarização acelerada (60 milhões de pessoas se bancarizaram na última década graças ao Pix e aos celulares), facilitou o acesso ao crédito, mas também aumentou o risco para quem tem pouca educação financeira. Vendedores de empréstimos relatam que muitos clientes contratam financiamentos “por necessidade ou por impulso, sem ser demasiado conscientes del riesgo”.
O governo discute com bancos um novo programa de renegociação de dívidas, com descontos que podem chegar a até 90%, semelhante ao Desenrola lançado em 2023.
A combinação de juros altos, precariedade no emprego, facilidade de parcelamento (inclusive de bens de consumo como tênis Nike em 10 vezes sem juros) e falta de planejamento financeiro criou o que especialistas chamam de “tempestade perfeita” para as famílias brasileiras.
Fonte: EL PAÍS


















