Itália apura esquema que beneficiou mais de 80 brasileiros com residências fictícias
Autoridades italianas investigam um suposto esquema de fraude que permitiu a mais de 80 brasileiros obterem a cidadania italiana por meio de residências falsas na pequena cidade de Moggio Udinese, com apenas 1.600 habitantes, localizada aos pés dos Alpes Julianos.
O caso, agora sob responsabilidade do Ministério Público, envolve falsificações em documentos públicos e pode resultar em penas de até 18 anos de prisão para os envolvidos.
Entre 2018 e 2024, 83 brasileiros, incluindo menores de idade, conseguiram o reconhecimento da nacionalidade por direito de sangue (iure sanguinis) ao declararem moradia fictícia em dois imóveis específicos nas ruas Via Abbazia e Via Traversigne.
Os beneficiários pagavam cerca de € 6.500 (equivalente a R$ 41,3 mil) pelo serviço, que incluía a emissão de títulos de residência irregulares.
A investigação aponta indícios de “falsificações grosseiras” em documentos, como códigos fiscais emitidos antes da chegada dos brasileiros à Itália, contratos de aluguel com assinaturas falsificadas e fiscalizações de presença forjadas por funcionários municipais. Muitos dos envolvidos visitaram a cidade por apenas 2 a 5 dias, aproveitando para turismo.
O promotor Giorgio Milillo, responsável pelo caso em Udine, destacou a raridade de visitas efetivas: “Alguns até vieram [à cidade], mas poucos. Ficavam poucos dias, faziam turismo e iam embora”.
Seis pessoas foram indiciadas, entre elas quatro funcionários da prefeitura local, um brasileiro residente no Vêneto – proprietário de uma das casas usadas e dono de uma empresa de assessoria em cidadania italiana – e uma mulher de origem albanesa. Eles são acusados de manter relações próximas para agilizar os processos administrativos.
Milillo explicou a escolha por municípios pequenos: “Elas têm menos funcionários e menos possibilidades de checagem interna. Em uma cidade maior, é mais difícil fazer isso com mais gente te fiscalizando”.
A prefeita de Moggio Udinese, Martina Gallizia, preferiu não comentar detalhes: “Como a investigação está em andamento, prefiro não dar declarações”.
Um dos grupos beneficiados inclui 19 membros de uma mesma família brasileira, com sobrenomes Floresi ou Florezi, de três gerações – incluindo crianças de 6 anos e idosos de até 71. Dez deles foram registrados em datas idênticas em 2019. Um integrante dessa família afirmou à reportagem que o processo foi conduzido de forma regular.
Os brasileiros que obtiveram a cidadania não são alvos da apuração. O esquema explorava a alternativa de residência temporária na Itália para acelerar o reconhecimento da dupla cidadania, evitando filas de até 10 anos nos consulados.


















