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Relógio do juízo final ganha tons mais perigosos em 2025

Expiração do novo start, modernização de arsenais e ameaças de testes nucleares elevam riscos globais de catástrofe

Em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, a retórica nuclear adotada por grandes potências em 2025 assumiu contornos ainda mais alarmantes, com novas armas em desenvolvimento, arsenais em processo de atualização e a proximidade do fim de um chave acordo de controle armamentista entre Rússia e Estados Unidos.

O Relógio do Juízo Final, símbolo mantido pelo Boletim de Cientistas Atômicos que mede a proximidade de uma catástrofe global, continua a apenas 89 segundos da meia-noite – a marca mais crítica já registrada desde sua criação em 1947.

“Não houve necessidade de usar essas armas… e espero que não seja necessário”, declarou no início do ano o presidente russo, Vladimir Putin, referindo-se ao maior arsenal nuclear do mundo, em repetidas alusões durante o conflito na Ucrânia. No entanto, em 2025, outros líderes também recorreram à carta nuclear: sugestões de retomada de testes atômicos pelos EUA, aceleração na expansão chinesa e o emprego de mísseis com capacidade nuclear pela Rússia intensificaram o clima de instabilidade.

Ponto de Inflexão na Era Nuclear

Especialistas alertam para um momento crítico na gestão de ameaças atômicas.

— Oitenta anos após o início da Era Nuclear, estamos realmente em um ponto de inflexão — afirmou ao GLOBO Alexandra Bell, presidente do Boletim de Cientistas Atômicos, responsável pelo Relógio do Juízo Final. — As escolhas sendo feitas agora, e as que serão feitas nos próximos meses e anos, determinarão se continuaremos a gerenciar e reduzir as ameaças nucleares ou se as veremos aumentar, minando todo o bom trabalho realizado para reduzi-las desde meados da década de 1960.

A Rússia, com cerca de 5.580 ogivas, alterou sua doutrina nuclear desde a invasão da Ucrânia, autorizando respostas atômicas mesmo a ataques convencionais.

Mísseis como o Kinjal e o Oreshnik foram utilizados, e “superarmas” como o drone submarino Poseidon e o míssil Burevestnik foram testados, descritas por analistas como instrumentos extremos.

— Essa foi uma circunstância em que vimos o uso da dissuasão nuclear, quando se ameaça recorrer à força nuclear se um curso de ação for tomado. Neste contexto, Putin foi bem-sucedido — avaliou Layla Dawood, professora de Relações Internacionais da Uerj. — Embora os países da Otan tenham conferido apoio à Ucrânia, o apoio direto, que entendemos como o envio de tropas, não aconteceu. Esse foi um resultado indireto da dissuasão das armas nucleares.

Expiração do Novo Start e Demandas de Trump

O tratado Novo Start, que limita ogivas operacionais a 1.550 e permite inspeções mútuas, vence em fevereiro de 2026 sem perspectivas de renovação. A Rússia suspendeu participações em verificações, priorizando avanços qualitativos, como mísseis hipersônicos mais difíceis de interceptar.

— O acordo não buscava apenas diminuir, do ponto de vista numérico, os armamentos, mas criar canais de confiança entre as duas partes. E, sem esses acordos, o mundo fica menos seguro — explica Dawood.

O presidente Donald Trump defendeu a retomada de testes nucleares americanos – parados desde 1992 – e insistiu na inclusão da China em futuros pactos. Pequim, com cerca de 600 ogivas e projeções de expansão para mil até 2030, resiste a negociações trilaterais.

— Precisamos encontrar uma maneira de levar Pequim à mesa de negociações, para deixar claro que a estabilidade estratégica é de seu interesse de segurança, que não tem carta branca para se esquivar simplesmente porque, no momento, possuem menos armas nucleares, e que não há asteriscos no NPT que permitam à China recorrer a essas medidas quando bem entender — enfatiza Bell.

Ataques a Instalações e Riscos Adicionais

Eventos como o bombardeio americano a sites iranianos de enriquecimento de urânio e danos a usinas ucranianas como Zaporíjia e Chernobyl reacenderam debates sobre a vulnerabilidade de infraestruturas nucleares em conflitos.

— Já passou da hora de discutirmos (…) a legitimidade de atacar instalações nucleares, o perigo que isso representa, que vai além da destruição da própria instalação, mas também sobre o que poderia acontecer com a população ao seu redor — disse Bell.

Com a conferência de revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT) marcada para 2026, especialistas defendem o fortalecimento do regime existente.

— É um tratado imperfeito, como todos os tratados são imperfeitos, mas é a melhor estrutura que temos agora para estabilizar as ameaças nucleares em todo o mundo — afirma Bell.

Esse panorama de 2025 reforça a urgência de ações coletivas para evitar uma escalada irreversível, em um mundo onde a dissuasão nuclear e a modernização de arsenais atômicos ameaçam a estabilidade global.

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