Protestos contra o regime de Khamenei mergulham o Irã em caos: mais de 60 mortos, apagão da Internet e ameaças de Trump
O Irã enfrenta, desde o final de dezembro de 2025, uma das maiores ondas de protestos contra o regime do aiatolá Ali Khamenei em mais de uma década, considerada a mais grave desde as manifestações de 2009.
As manifestações, que começaram motivadas pela profunda crise econômica, evoluíram rapidamente para exigências explícitas de renúncia do líder supremo – no poder desde 1989 – e pelo fim da República Islâmica.
Vídeos que circulam nas redes sociais (apesar das restrições) mostram cenas de intenso caos nas ruas: carros incendiados, prédios públicos depredados, bandeiras oficiais rasgadas e multidões entoando gritos de “Morte ao ditador” em referência a Khamenei.
Os atos se espalharam por ao menos 25 das 31 províncias do país, com relatos de marchas em massa em Teerã, Mashhad, Tabriz, Kermanshah e outras cidades importantes.
Organizações de direitos humanos, como a Iran Human Rights Network (com sede na Noruega) e a HRANA, contabilizam mais de 60 mortes desde o início dos protestos, incluindo manifestantes, crianças (ao menos oito) e membros das forças de segurança.
A quarta-feira (7 de janeiro de 2026) foi registrada como o dia mais sangrento, com pelo menos 13 mortes confirmadas. A repressão policial, com uso de gás lacrimogêneo, balas reais e prisões em massa, intensificou o caráter político dos atos.
Em resposta à escalada, o governo ordenou, na quinta-feira (8 de janeiro), um apagão nacional da internet e da rede telefônica, confirmado pela ONG NetBlocks como um corte quase total das conexões, com o objetivo de impedir a mobilização, a circulação de imagens e vídeos e a coordenação dos protestos.
Pronunciamento de Khamenei e acusações aos EUA
Na sexta-feira (9 de janeiro), o líder supremo Ali Khamenei fez seu primeiro pronunciamento oficial desde o início da crise, transmitido pela TV estatal.
Ele classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”, acusando-os de agir para “agradar o presidente dos Estados Unidos” e afirmou que o governo “não vai recuar” diante da pressão.
Khamenei declarou:
“Um grupo destruiu prédios que pertencem ao próprio povo apenas para agradar o presidente dos Estados Unidos.”
Em mensagens nas redes sociais, ele comparou Donald Trump a líderes “arrogantes”, como o ex-xá Mohammad Reza Pahlavi (deposto em 1979), e reforçou que o povo iraniano “não tolerará mercenários de potências estrangeiras”.
O braço de inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) emitiu comunicado alertando para “retaliação” e afirmando que a preservação das “conquistas do regime” e da “segurança da sociedade” são linhas vermelhas.
Contexto econômico e geopolítico
A crise teve origem no colapso econômico: o rial perdeu cerca de metade de seu valor frente ao dólar em 2025, a inflação superou 40% em dezembro e sanções internacionais, agravadas pela guerra com Israel em junho de 2025, tornaram bens essenciais inacessíveis. A insatisfação inicial com preços e desemprego transformou-se em revolta contra o regime teocrático.
O ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, exilado nos EUA e filho do último xá, classificou os atos como a “chama de uma revolução nacional” e convocou greves e protestos contínuos, defendendo um referendo popular para escolher entre monarquia constitucional ou república secular.
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou intervenção militar caso o regime mate manifestantes, afirmando que “atingirá muito duramente” o Irã. Khamenei respondeu que Trump deveria se concentrar em seu próprio país “se for capaz”.
A União Europeia, por meio da chefe de diplomacia Kaja Kallas, considerou a repressão “inaceitável” e o apagão da internet como sinal de um “regime que tem medo de seu povo”.
A situação continua extremamente volátil, com risco de maior violência e incertezas sobre a estabilidade do regime dos aiatolás.


















