Os cortes drásticos no orçamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), implementados pela administração de Donald Trump, estão forçando organizações humanitárias no Brasil a operar sem verbas, com funcionários trabalhando sem salário e programas essenciais em risco de paralisação total em 2026.
A medida, que congelou quase 90% dos contratos de ajuda externa em fevereiro de 2025, afeta diretamente entidades como a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, que atende refugiados e migrantes de mais de 78 nacionalidades.
“Nunca vivemos nada parecido na história da Cáritas”, afirma Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas-RJ. Com quase 50 anos de existência, a organização enfrenta um futuro incerto: os repasses do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), financiados em grande parte pelos EUA, foram suspensos, deixando Thuller – que atua na entidade há 18 anos – sem salário desde então.
Os recursos da Cáritas vinham do ACNUR e de projetos menores há mais de 40 anos. Os valores para 2025 haviam sido negociados no ano anterior, mas, em fevereiro, a notificação de cortes chegou abruptamente, reflexo da ordem executiva de Trump que realinhou a ajuda externa à política “America First”.
Como consequência, a instituição suspendeu auxílios de subsistência para imigrantes em emergências – como alimentação, cuidados médicos e aluguel –, atrasou o curso gratuito de português e demitiu parte da equipe.
De acordo com Pablo Mattos, oficial de Relações Governamentais do ACNUR Brasil, os cortes a parceiros como a Cáritas foram inevitáveis após a agência da ONU sofrer uma redução de quase 25% em seu orçamento global anual, impactado não só pelos EUA, mas também por nações europeias.
“A última vez que a agência trabalhou com um orçamento inferior a US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21,8 bilhões) foi cerca de 10 anos atrás, quando o número de deslocados à força era cerca da metade dos 120 milhões que existem hoje no mundo”, explica Mattos.
“Estamos diminuindo o número de pessoal do ACNUR no Brasil, incluindo Roraima, e não conseguiremos apoiar cerca de 270 mil pessoas no Brasil que precisariam de ajuda”, alerta ele. Ano após ano, o mundo registra recordes de deslocamentos forçados por violações de direitos humanos, conflitos e mudanças climáticas.
No Brasil, dois programas de assistência a refugiados venezuelanos foram fechados, e outro contra a exploração sexual infantil de crianças foi obrigado a interromper operações, segundo relatórios da Anadolu Agency e da Associated Press.
“O impacto é considerável e bastante negativo. Eu diria até que devastador”, resume o oficial do ACNUR. “O trabalho como o nosso está em risco de fechar, não porque a gente não é mais necessário, muito pelo contrário. Mas é porque a gente está vivendo uma crise, que é uma crise de responsabilidade. Não é só uma crise financeira.”
Histórias de impacto humano
Idrissa Deme, oriundo do Burkina Faso, na África Ocidental, chegou ao Brasil em 2013 por um convênio entre os governos brasileiro e de seu país de origem para estudos. Ele testemunhou a vulnerabilidade de imigrantes fugindo de guerras e violências, e recorreu à Cáritas em momentos críticos.
“A ajuda que a Cáritas me deu não foi só a questão de documentação, mas foi também o acolhimento. Imagine uma pessoa no Brasil sem documentação, sem falar a língua, sem ter onde morar. Como é que a pessoa ia sobreviver como imigrante? Tem várias situações que eu posso contar que, talvez, se não tivesse tido a ajuda da Cáritas… eu não sei o que seria a vida dessas pessoas, por exemplo.”
Os cortes da USAID, que representavam 42% da ajuda humanitária global rastreada pela ONU em 2024, já resultaram na demissão de milhares de funcionários em agências internacionais e na suspensão de serviços em crises como as de Afeganistão, Ucrânia e Sudão.
No Brasil, a medida agrava a pressão sobre o sistema de acolhimento, com mais de 2,8 milhões de venezuelanos afetados indiretamente pela redução de verbas para integração e proteção.
Organizações como a Oxfam e a Anistia Internacional classificam a decisão como “recorrente e danosa”, violando princípios de direitos humanos e ameaçando milhões de vidas vulneráveis.


















