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Economistas defendem privatização dos Correios

Plano de reestruturação dos Correios avança, mas não basta para superar déficit bilionário

Em meio a uma grave crise financeira, os Correios revelaram na segunda-feira (29/12) um conjunto de ações para reorganizar suas operações, que acumulam perdas significativas.

No entanto, analistas econômicos consideram essas iniciativas um passo positivo, porém limitado, incapaz de eliminar o rombo nas contas da empresa pública. Eles enfatizam que a privatização surge como a alternativa mais viável para a sobrevivência no mercado de entregas, apesar da oposição do governo federal. 

O presidente da estatal, Emmanoel Rondon, apresentou um plano que inclui a redução de custos em R$ 2,1 bilhões, o encerramento de aproximadamente mil agências e a implementação de um programa de demissão voluntária (PDV) visando o desligamento de 15 mil servidores ao longo de dois anos.

Além disso, a venda de cerca de mil imóveis está prevista para gerar receitas adicionais. Essas medidas visam combater um prejuízo estimado em R$ 10 bilhões para 2025, que pode saltar para R$ 23 bilhões em 2026. 

Desafios na Implementação e Impacto Limitado

Especialistas alertam para obstáculos na execução do plano. As ações principais, como o PDV, demandam investimentos iniciais antes de trazer economias reais, enquanto a alienação de bens públicos costuma ser um processo demorado.

Essa lentidão agrava a situação em um setor logístico cada vez mais disputado, onde a agilidade é essencial.

— A percepção é de que as medidas vão na direção certa, mas não vão resolver o prejuízo, porque o problema é muito maior do que as economias propostas pelo plano. São números que, considerando uma estimativa de R$ 23 bilhões em prejuízo (em 2026), não farão frente (a isso) — afirma Armando Castelar, economista do Ibre/FGV. 

Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, critica o timing das reformas, apontando que elas chegam com atraso.

A fatia de mercado dos Correios despencou de 51% para menos de 25%, reflexo de problemas de governança típicos de empresas estatais, influenciados por pressões políticas, falhas na administração de pessoal e um ambiente de alta concorrência que exige mão de obra intensiva.

— Os Correios atuam em um mercado altamente competitivo, que demanda agilidade. A empresa está quebrada. Houve uma gestão de recursos humanos muito falha, o governo passou pano numa situação calamitosa. E há um passivo contingente imenso — afirma Frischtak. — Sou muito cético de que qualquer plano de reestruturação possa ser levado adiante de forma íntegra começando em ano eleitoral e com a Justiça trabalhista leniente com empresas falidas. 

Necessidade de Recursos e Governança

A estatal enfrenta uma demanda urgente por R$ 20 bilhões em caixa. Desse montante, R$ 12 bilhões já foram obtidos via empréstimo de cinco bancos, com aval da União. Os R$ 8 bilhões restantes poderiam vir de novos créditos ou injeções diretas do governo, o que levanta preocupações sobre o uso de fundos públicos.

— Qualquer aporte (atual ou futuro) deveria ser condicional a um plano consistente de reestruturação e redirecionamento estratégico — sublinha Sérgio Lazzarini, professor do Insper. — Em sendo uma estatal, é crucial também este governo repensar sua abordagem para as estatais e retomar uma postura mais atenta para a sua governança e gestão. Senão, qualquer plano de mudança estratégica pode não ser crível. 

Castelar destaca que a remoção dos Correios do programa de privatizações em 2023 contribuiu para o atual cenário de déficits, contrastando com a lucratividade da empresa em 2021. Ele vê o prejuízo como consequência de interferências políticas.

— Poderíamos estar poupando esse dinheiro que está sendo gasto agora, os Correios estavam na lista de privatizações. Era uma estatal lucrativa em 2021. O prejuízo mostra o impacto da interferência política — avalia ele. — Cogitar um aporte de R$ 8 bilhões vindo da União é um valor muito alto, relevante. O problema é que isso é recorrente. Mais à frente, vai precisar provavelmente de outros bilhões de reais. 

Privatização como Caminho para a Sustentabilidade

Os analistas convergem na defesa da privatização para resolver a crise dos Correios de forma definitiva. Frischtak sugere dividir a empresa em duas partes: uma para lidar com os passivos acumulados e outra, limpa de dívidas, destinada à venda no mercado privado.

— Só faz sentido privatizar o que vem para frente, sem perpetuar o (prejuízo) para trás. Já a hipótese de uma parceria público-privada demandaria botar dinheiro público. Não faz sentido. 

Serviços essenciais, como entregas em áreas remotas, poderiam ser preservados por meio de regulamentações específicas na modelagem da concessão, similar ao que ocorreu em setores como saneamento, energia elétrica e telecomunicações.

— Isso foi feito no saneamento, na eletricidade, em telecomunicações. Tudo precisa estar na regulação, na modelagem criada para a privatização — conclui Castelar. 

Essa visão reforça a necessidade de uma estratégia que evite injeções recorrentes de recursos públicos, promovendo eficiência e competitividade nos Correios. A crise atual destaca os riscos de manter estatais sob influência política em mercados dinâmicos

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