Escândalo no Judiciário do Pará: Delegados, Promotor e Juiz são acusados de esquema de propina em casos de ‘Jogo do Tigrinho’ e dívidas cíveis, revela Ministério Público
O Ministério Público do Pará (MPPA) investiga um suposto esquema de corrupção envolvendo dois delegados da Polícia Civil, um promotor de Justiça e um juiz que teriam se unido para manipular a distribuição de processos em Belém e extorquir propina de investigados.
A apuração, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), aponta que o grupo burlava procedimentos judiciais para cobrar vantagens indevidas em troca de benefícios como liberação de prisões ou arquivamento de inquéritos.
De acordo com o relatório de 552 páginas elaborado pela Procuradoria-Geral de Justiça e enviado ao Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), as cobranças ocorreram em casos variados, incluindo dívidas cíveis, acidentes de trânsito e investigações envolvendo influenciadores digitais que promoviam jogos de aposta online, como o popular “jogo do tigrinho” (Fortune Tiger).
Em um episódio específico ligado a influenciadores, o valor da propina negociada para evitar a conversão de prisão temporária em preventiva chegou a R$ 547.600,00.
“Como forma de dissimular e viabilizar a cobrança realizada” — descreve o MPPA a prática de instaurar inquéritos policiais por crimes como estelionato e apropriação indébita em casos originalmente cíveis, segundo a investigação.
O esquema teria começado há mais de um ano e envolveu medidas cautelares concedidas pelo juiz em plantões judiciais, permitindo que os demais membros atuassem na cobrança posterior.
As provas incluem trocas de mensagens no WhatsApp, quebras de sigilo bancário e fiscal, e movimentações financeiras suspeitas.
Um núcleo liderado por um dos delegados é acusado de movimentar cerca de R$ 4 milhões de forma irregular desde 2021, com indícios de lavagem de dinheiro via contas de terceiros e saques em espécie.
“Esses agentes públicos instalaram associação criminosa no cerne do Ministério Público, da Polícia Civil e do Judiciário, colocando em xeque todo o sistema de segurança pública e Justiça estatal” — afirma o relatório, descrevendo o caso como uma “completa inversão do exercício de suas funções”.
Entre os investigados estão o delegado Arthur Afonso Nobre de Araújo (considerado figura central), o delegado Carlos Daniel Fernandes de Castro (ex-diretor metropolitano), o promotor Luiz Márcio Teixeira Cypriano e o juiz Jackson Sodré Ferraz (com quebras de sigilo autorizadas para familiares).
Também são alvo a promotora Juliana Dias Nobre (esposa do delegado Arthur) e assessores, advogados e intermediários.
O MPPA solicitou afastamentos dos cargos, quebras adicionais de sigilo e buscas para avançar na operação.
A Polícia Civil do Pará afirmou que não compactua com desvios e que as investigações seguem sob sigilo.
O Tribunal de Justiça não comentou o caso em andamento. As defesas dos envolvidos negam as acusações e alegam inocência, aguardando contraditório.
O escândalo chocou a sociedade paraense e reacende debates sobre corrupção no sistema de justiça, especialmente em um contexto de repressão a jogos ilegais como o jogo do tigrinho, que tem gerado prisões de influenciadores em várias regiões do Brasil.

















