Em um momento de intensos questionamentos sobre a legalidade de ações militares no combate ao narcotráfico, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, defendeu veementemente as operações do governo Trump contra supostos barcos de traficantes no Caribe. Durante discurso no Fórum Nacional de Defesa Reagan, em Simi Valley, na Califórnia, no sábado (6), Hegseth afirmou que as missões exemplificam “a força da determinação americana”.
“Neste momento, o mundo está testemunhando a força da determinação americana em conter o fluxo de drogas letais para o nosso país”, declarou o chefe do Pentágono. “Mais uma vez, fomos firmes e claros: se você trabalha para uma organização terrorista designada e traz drogas para este país em um barco, nós o encontraremos e o afundaremos”, acrescentou, reforçando o tom agressivo adotado pela administração desde o início da ofensiva, em setembro.
As declarações ocorrem em meio a um escrutínio crescente sobre a campanha antidrogas do governo Trump, que já resultou na destruição de 23 embarcações e na morte de pelo menos 87 pessoas.
O foco das controvérsias recai sobre um ataque ocorrido em 2 de setembro, quando forças especiais americanas atingiram um barco suspeito de transporte de narcóticos no Caribe. Um segundo disparo subsequente eliminou dois sobreviventes, gerando acusações de violação das leis de guerra internacionais.
De acordo com o manual de leis de guerra do Pentágono, o abate de náufragos é considerado um crime de guerra, uma vez que indivíduos “que necessitam de assistência e cuidados” devem ser protegidos e as forças armadas devem “se abster de qualquer ato hostil”.
O episódio atraiu críticas bipartidárias, culminando em uma promessa do Comitê de Serviços Armados do Senado de investigar o caso de forma aprofundada. Hegseth, sua equipe no Pentágono e a Casa Branca responsabilizaram o almirante Frank “Mitch” Bradley, então comandante do Comando de Operações Especiais dos EUA, pela decisão do ataque subsequente.
No sábado, o secretário endossou publicamente a escolha do oficial. “Pelo que entendi na época e pelo que entendo agora, apoio totalmente essa greve”, disse ele. “Eu mesmo teria tomado a mesma decisão.”
O incidente dominou as reuniões de Bradley com o Congresso nesta semana, nas quais legisladores foram informados de que Hegseth havia enfatizado, antes da missão, que os ataques deveriam ser letais. No entanto, o secretário só teria sido notificado sobre os sobreviventes após sua eliminação, segundo uma fonte com conhecimento direto do assunto.
Questionado diretamente, Hegseth negou ter emitido ordem para que todos a bordo fossem executados, rotulando a alegação de “patentemente ridícula”. “Não, você não entra e diz: ‘Matem-nos’. É simplesmente ridículo. A intenção é criar uma caricatura de mim, das decisões que tomamos e de como as tomamos”, rebateu.
O chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, também se pronunciou no fórum de defesa, destacando a importância da transparência. Ele afirmou que a iniciativa de compartilhar detalhes com o Congresso partiu dele e de Bradley “para que pudéssemos continuar a manter e ampliar a confiança que devemos conquistar todos os dias do povo americano”.
Fontes próximas aos briefings de Bradley revelaram que os dois homens abatidos no segundo ataque não possuíam rádio ou outros meios de comunicação. Autoridades da Defesa argumentaram que os sobreviventes representavam uma ameaça legítima, pois supostamente estariam solicitando reforços via rádio – o que poderia permitir a continuidade do tráfico.
Como parte das sessões informativas, parlamentares de alto escalão assistiram a um vídeo da operação, que gerou reações divididas por linhas partidárias. Um proeminente democrata classificou o material como “uma das coisas mais preocupantes” que já vira como legislador.
Ao ser indagado sobre a possibilidade de divulgar o vídeo completo ao público, Hegseth adotou tom evasivo: “Estamos acompanhando o processo e veremos o que acontece”. A resposta contrasta com as declarações do presidente Donald Trump, que, no início da semana, afirmou a repórteres que seu governo “certamente” liberaria as imagens.
Embora a administração Trump defenda as operações como essenciais para conter o fluxo de narcóticos, críticos, incluindo especialistas em direito internacional, questionam a legalidade da iniciativa, argumentando que ela equipara traficantes a combatentes em zona de guerra sem base jurídica sólida. O caso continua sob investigação congressional, com potencial para impactar futuras missões no Caribe e no Pacífico Oriental.


















