Em mais um capítulo de uma campanha militar controversa que já custou dezenas de vidas, os Estados Unidos lançaram na quinta-feira (4/12) mais um ataque a um barco que supostamente traficava drogas no Pacífico Oriental, matando quatro pessoas a bordo da embarcação.
O Comando Sul dos EUA, responsável pela América Latina e o Caribe, divulgou o vídeo do bombardeio em suas redes sociais, afirmando que o alvo era operado por uma “Organização Terrorista Designada” e navegava por uma rota conhecida do narcotráfico na região.
As forças americanas disseram ainda que informações de inteligência confirmam o envolvimento da embarcação com o narcotráfico, mas não apresentaram evidências – um padrão recorrente na ofensiva iniciada em setembro pelo governo de Donald Trump.
O Pentágono alega que o barco estava ligado a grupos como o Tren de Aragua, gangue venezuelana rotulada como terrorista estrangeira em janeiro, mas críticos internacionais, incluindo a ONU e a Anistia Internacional, questionam a falta de transparência e a legalidade das ações em águas internacionais.
Escalada de tensões: Maduro acusa Trump de trama para derrubá-lo
Nos últimos meses, os EUA intensificaram as operações contra embarcações que supostamente traficavam drogas perto da costa venezuelana, expandindo o foco para o Pacífico Oriental em outubro.
O ditador Nicolás Maduro, no poder desde 2013, afirmou que Donald Trump está tentando derrubá-lo e que os cidadãos e os militares da Venezuela vão resistir, classificando os ataques como “agressão imperialista” e pretexto para pilhar o petróleo venezuelano.
Maduro, que convocou marchas pró-soberania e milícias populares, nega qualquer envolvimento de Caracas no narcotráfico e acusa Washington de fabricar provas para justificar uma invasão.
A retórica beligerante de Trump, que compartilha vídeos dos mísseis em chamas em sua rede Truth Social, alimenta temores de um conflito aberto na América do Sul.
O presidente americano, em postagens recentes, alertou traficantes: “Sejam avisados – se vocês transportam drogas que matam americanos, estamos caçando vocês!” Maduro rebateu, mobilizando aliados regionais como o presidente colombiano Gustavo Petro, que defendeu a “soberania sul-americana”.
Crise interna: Republicanos questionam legalidade após mortes de sobreviventes
Internamente, o governo Trump tem enfrentado questionamentos no Congresso sobre a legalidade desses ataques, com democratas e organizações de direitos humanos acusando violações ao direito internacional.
Nos últimos dias, parlamentares republicanos passaram a expressar preocupação com as ações militares dos Estados Unidos na costa da Venezuela diante da notícia de que sobreviventes de um ataque a barco foram alvos de um bombardeio subsequente – um incidente de setembro que, segundo o Washington Post, envolveu um segundo strike para “eliminar a tripulação inteira”, gerando acusações de “crimes de guerra”.
Especialistas em direito internacional, como Brian Finucane, do International Crisis Group, argumentam que não há “conflito armado” formal para justificar os bombardeios, e que as ações unilaterais do Executivo carecem de autorização congressional.
O almirante responsável por um dos ataques deve prestar esclarecimentos ao Congresso na próxima semana, enquanto o Senado rejeitou uma proposta para limitar as operações de Trump.
Até este bombardeio mais recente, os EUA haviam lançado 21 ataques a barcos no Caribe e no Pacífico, matando 83 pessoas – número que inclui um sobrevivente desaparecido presumido morto e exclui dois resgatados em incidentes anteriores.
A campanha, que começou com um strike em 2 de setembro afundando um speedboat com 11 ocupantes perto de Trinidad e Tobago, já se espalhou para águas próximas à Colômbia, Equador e Peru, onde a maioria da cocaína para os EUA transita.
Mobilização massiva: Porta-aviões e ameaça de invasão terrestre
Washington já reuniu cerca de 15 mil militares na região em mobilização que inclui o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, além de navios de guerra, jatos F-35, bombardeiros B-52, drones MQ-9 Reaper e um submarino nuclear.
A presença do Gerald Ford no Caribe, anunciada em novembro, elevou as apostas, com exercícios conjuntos em Trinidad e Tobago envolvendo fuzileiros navais – um sinal de que a operação pode evoluir para incursões em terra.
Recentemente, o líder americano anunciou que os Estados Unidos pretendiam lançar uma fase de operações terrestres das operações contra o narcotráfico, o que analistas interpretam como ameaça direta à Venezuela.
Pete Hegseth, secretário de Defesa de Trump, defendeu as ações como “combate a narco-terroristas”, comparando-os à Al-Qaeda e prometendo “mapear, rastrear e matar”. Mas com pelo menos 81 mortes confirmadas em mais de 20 strikes até agora, a “guerra às drogas” de Trump arrisca transformar uma crise de narcotráfico em uma crise geopolítica, com Maduro jurando resistência e o Congresso americano dividido.


















