Registros de mensagens obtidos pela coluna revelam que a atuação da intermediária incluiu desde cobranças diretas de valores a secretários municipais até o agendamento de reuniões de alto escalão e a antecipação de aval da Fazenda para liberar R$ 710 milhões
Novas revelações abalam os bastidores da política e da administração pública ao exporem a teia de influência por trás de operações financeiras bilionárias. De acordo com investigações e registros de mensagens obtidos pela coluna de Andreza Matais, do portal Metrópoles, a lobista Roberta Luchsinger recebeu a quantia de R$ 570 mil em meio às articulações para destravar um empréstimo de R$ 710 milhões buscado pela Prefeitura de Goiânia junto ao Tesouro Nacional.








Os diálogos detalham uma rotina de forte pressão, cobranças financeiras explícitas e trânsito por gabinetes federais durante a gestão do então prefeito Rogério Cruz. Enquanto negociava os termos do crédito bilionário com órgãos federais, Luchsinger mantinha contato estreito com autoridades locais e utilizava empresas terceirizadas para garantir o recebimento de seus honorários informais.
A teia de contatos no Tesouro e a liberação de crédito
As conversas de celular atribuídas à lobista evidenciam que sua atuação extrapolou largamente os limites do lobby institucional tradicional. Luchsinger conversava de forma direta e frequente com Rogério Ceron, então secretário do Tesouro Nacional, cobrando andamentos de processos, combinando reuniões estratégicas com o ex-prefeito Rogério Cruz e chegando a antecipar informações privilegiadas sobre a publicação do aval financeiro da União.
Em uma das passagens mapeadas pela reportagem, após confirmar que o documento de liberação de crédito seria formalmente assinado, a intermediária enviou mensagens comemorativas a Ceron e, na sequência, cobrou movimentações da gestão municipal. “Pode avisar seu prefeito que segunda-feira tá resolvido. Publicado e assinado”, escreveu Luchsinger a um interlocutor da administração de Goiânia.
Apesar do forte teor de proximidade revelado nas mensagens, o Ministério da Fazenda e o Tesouro Nacional emitiram notas oficiais afirmando que todo o trâmite da operação de crédito seguiu estritamente rigorosos critérios técnicos. Segundo a pasta econômica, o município de Goiânia preenchia com folga todos os limites e parâmetros fiscais exigidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O órgão pontuou que a dívida consolidada do município equivalia a apenas 0,12 vez a sua receita corrente líquida — ficando muito abaixo do teto legal de 1,2 —, enquanto o comprometimento anual com o pagamento de débitos representava 4,18% da receita, ante o limite máximo permitido de 11,5%.
O fluxo dos pagamentos: R$ 570 mil via empreiteiras e contas indicadas
Paralelamente às tratativas em Brasília, os registros mostram uma intensa cobrança financeira direcionada a Quesede Ayres Henrique, que na época exercia o cargo de secretário-executivo da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia. Os repasses financeiros somaram R$ 570 mil e ocorreram em um intervalo curto de tempo, entre os dias 21 de agosto e 4 de setembro de 2024.
Os documentos e comprovantes de transferência revelam um esquema complexo de circulação de recursos:
- 21/08/2024: Dois repasses distintos nos valores de R$ 186 mil e R$ 214 mil foram efetuados pela empresa Construservice, empreiteira que mantinha contratos vultosos com a Prefeitura de Goiânia (ultrapassando a marca de R$ 127 milhões em repasses públicos pelo Portal da Transparência).
- 30/08/2024: Um pagamento de R$ 50 mil foi realizado por meio da empresa JJ2 CI.
- 04/09/2024: Logo após a confirmação oficial do aval do Tesouro, um novo aporte de R$ 120 mil foi enviado por meio de uma conta de origem não identificada diretamente nos extratos divulgados, direcionado para uma conta indicada por Luchsinger.
Destino dos recursos e desdobramentos políticos
Além das transferências bancárias via PIX e empresas parceiras, as conversas apontam referências a pagamentos voltados a despesas de viagens, agências de turismo e até mesmo menções a dinheiro em espécie. Em uma das ocasiões, a lobista pressionou o ex-secretário para comparecer à sua residência em Brasília sob instruções rigorosas de sigilo.
Os fatos envolvendo Roberta Luchsinger ampliam o escopo de investigações em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que analisam suspeitas de tráfico de influência, repasses financeiros atípicos e conexões com figuras influentes do cenário político nacional.
Fonte: Metrópoles
*Imagem da capa gerada por IA


















