Documento do BC revela videoconferência sobre negociações do Banco Master no dia da detenção do executivo
Central nas apurações de um suposto esquema de fraudes bilionárias estimado em R$ 12 bilhões, o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, participou de uma videoconferência com o diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Aílton de Aquino Santos, poucas horas antes de sua prisão pela Polícia Federal em 17 de novembro.
Vorcaro, Aquino e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, prestaram depoimentos individuais à Polícia Federal nesta terça-feira (30), sob supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Inicialmente prevista uma possível acareação entre os três, o procedimento ficou condicionado à identificação de contradições pela PF, conforme decisão do ministro Dias Toffoli, relator do caso.
O inquérito tramita em sigilo no STF, com um juiz auxiliar designado para acompanhar as oitivas.
Reunião Virtual e Comunicação sobre Viagem Internacional
Conforme ofício elaborado pelo chefe-adjunto do departamento de fiscalização do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, a videoconferência ocorreu em 17 de novembro e contou também com a presença do chefe do departamento de supervisão bancária, Belline Santana. A reunião durou 40 minutos.
Nela, Vorcaro atualizou os representantes do BC sobre as tratativas em andamento “na busca de uma solução de mercado para o Conglomerado Master”.
Durante o encontro virtual, o executivo mencionou verbalmente sua intenção de viajar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para reuniões com investidores estrangeiros.
No entanto, não houve “correspondência, e-mail ou mensagem escrita” confirmando os detalhes da viagem, e a videoconferência não foi gravada.
Vorcaro foi detido por volta das 22h daquele mesmo dia, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), ao tentar embarcar em um jato particular com destino a Malta – o que levantou suspeitas de tentativa de fuga do país.
Documento do BC Auxilia Defesa e Liberação com Tornozeleira
O ofício do Banco Central foi utilizado pela defesa de Vorcaro para contestar a manutenção da prisão.
Em decisão proferida em 28 de novembro, a desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), determinou a soltura do banqueiro, substituindo a prisão preventiva por medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte e proibição de contato com outros investigados e de deixar o município de São Paulo.
“Os impetrantes anexaram prova demonstrando que o paciente comunicou previamente ao Banco Central sua viagem internacional com destino a Dubai, tendo informado formalmente o motivo da viagem — venda de instituição financeira — durante reunião oficial realizada na mesma data do embarque”, registrou a desembargadora em sua decisão.
Controvérsias na Acareação e Pressão Política
A possibilidade inicial de acareação gerou críticas da Procuradoria-Geral da República (PGR), que se manifestou contra a medida.
“Como é que pode colocar o investigado em inquérito policial para contradizer o representante de orgão regulador?”, questionou um integrante da cúpula da PGR. “Nenhuma investigação de gestão fraudulenta ou temerária se faz assim.”
Apesar da oposição da PGR e do próprio BC, Toffoli manteve os depoimentos, mas ajustou o formato: oitivas separadas primeiro, com acareação apenas se a PF julgar necessária.
O caso envolve a Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF, que apura irregularidades no Banco Master, incluindo pressões políticas relatadas por técnicos do BC para evitar a intervenção na instituição.
A liquidação extrajudicial do Master foi aprovada por unanimidade pela diretoria do BC, com apoio inclusive de Aquino, visto por alguns como próximo ao banco.
Essa nova fase no STF destaca tensões entre investigados, reguladores e o Judiciário no escândalo que abalou o sistema financeiro brasileiro, com implicações para a governança de instituições bancárias e combate a fraudes no setor financeiro.


















