Alerj aprova soltura de Bacellar, acusado de vazar operação da PF, em votação tensa; STF terá palavra final
Em uma sessão marcada por interrupções e embates acalorados, o plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou, nesta segunda-feira (8/12), o projeto de resolução que recomenda a revogação da prisão preventiva do presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União Brasil).
A decisão, tomada por 42 votos favoráveis contra 21 contrários, com duas abstenções, três ausências e um deputado licenciado, referenda o parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), aprovado horas antes por 4 a 3. No entanto, a palavra final caberá ao Supremo Tribunal Federal (STF), que analisa o caso.
Bacellar, preso em 3 de dezembro por ordem do ministro Alexandre de Moraes, é investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de obstrução de justiça no âmbito da Operação Unha e Carne, desdobramento da Operação Zargun. Segundo relatório da PF, o parlamentar teria vazado informações sigilosas sobre uma operação contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, permitindo que ele destruísse provas e evadisse de sua residência.
Mensagens trocadas entre os dois, apreendidas nos celulares, indicam que Bacellar orientou o investigado na remoção de objetos, em uma ação que, para os agentes, culminou na obstrução das investigações.
O projeto de resolução será publicado no Diário Oficial da Alerj e encaminhado ao STF, que decidirá sobre a manutenção da prisão ou eventuais medidas cautelares, como proibição de contato com outros parlamentares.
A defesa de Bacellar nega qualquer envolvimento no vazamento, alegando que as trocas de mensagens eram estritamente profissionais. Já os advogados de TH Joias expressam surpresa com a operação e reforçam a ausência de ligações criminosas.
Tensões explodem no plenário
A votação, que exigia no mínimo 36 votos para ser aprovada, foi precedida por uma interrupção de mais de 20 minutos devido a um bate-boca entre deputados. A confusão irrompeu quando a deputada Dani Monteiro (PSol) iniciou seu discurso antes da abertura do painel de votação, declarando que aquele era “um dia triste para o Parlamento”.
A fala provocou reações imediatas de parlamentares aliados a Bacellar, que invocaram um acordo prévio para limitar os discursos a três oradores de direita e três de esquerda, com até 10 minutos cada.
O PSol, por sua vez, acusou membros da chamada “Tropa do Bacellar” de tentar cercear as manifestações da oposição, ampliando o clima de polarização na Casa.
Destaque para a abstenção do deputado Rafael Picciani (MDB), que alegou conflito de interesse. O parlamentar, que ocupava a Secretaria de Esportes e Lazer do governo estadual até ser exonerado para retornar à Alerj – manobra que evitou a votação sobre a prisão de TH Joias –, é investigado pelo STF no caso da chamada “Carta Picciani”, relacionado à sua nomeação.
Contexto da prisão e ligações com o crime organizado
A detenção de Bacellar ocorreu na Superintendência da PF no Rio, durante a Operação Unha e Carne, que mirava aliados de TH Joias. O ex-deputado, preso em setembro na Operação Zargun, é acusado de colaborar com o crime organizado na capital fluminense, atuando como intermediário na compra e venda de drogas, fuzis e armas antidrones para facções como o Comando Vermelho, especialmente no Complexo do Alemão.
Agentes encontraram R$ 90 mil em espécie no carro de Bacellar e realizaram buscas em seus gabinetes e residências.
A decisão da Alerj, que segue rito constitucional estabelecido pelo STF em 2019, reforça o embate entre o Legislativo fluminense e o Judiciário, em meio a denúncias de infiltração do crime organizado no poder político.
Analistas apontam que o episódio pode agravar a crise de imagem da Casa e impactar alianças eleitorais para 2026, enquanto o governo de Cláudio Castro (PL) se vê pressionado a se posicionar. O STF, sob relatoria de Moraes, deve se manifestar em breve, possivelmente impondo restrições adicionais ao deputado.


















