Gravação atribuída ao comando dos rodoviários revela organização da CTB para intervir em garagens no dia da votação
A apuração sobre as irregularidades no transporte coletivo de Salvador durante a votação do segundo turno das eleições ganhou novos contornos neste sábado, 31 de outubro de 2026. A divulgação de um registro em áudio atribuído a Fábio Primo, presidente do Sindicato dos Rodoviários de Salvador, apontou a existência de um esquema planejado por integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) para fixar propaganda eleitoral em veículos do sistema de transporte público municipal no próprio dia do pleito, ocorrido no domingo, 25 de outubro.

A gravação, que traz orientações explícitas sobre o direcionamento de equipes e a distribuição de materiais de campanha para utilização nas garagens das empresas concessionárias, surge em meio ao processo de investigação aberto pelas autoridades para apurar a paralisia parcial da frota de ônibus e o consequente impacto no deslocamento de eleitores na capital baiana.
O Conteúdo do Áudio e a Logística Descrita na Gravação
No material em áudio revelado, a voz atribuída ao líder sindical detalha uma divisão de tarefas e convoca a militância da central sindical para assumir posição de destaque na intervenção dentro dos pátios de operação do transporte. A orientação era agir de forma coordenada antes que a frota ganhasse as ruas de Salvador.
“Esse momento é crucial. A CTB sempre na vanguarda, sempre esteve à frente desses movimentos. Eu quero que todos os grupos estejam lá, mas eu quero que a CTB se responsabilize pelas garagens”, afirma o trecho atribuído à liderança.
O plano detalhava que os ativistas deveriam aguardar a chegada dos adesivos e se encarregar da aplicação do material de propaganda nos ônibus programados para circular no dia da votação. A conduta colide diretamente com a legislação eleitoral brasileira, que veda categoricamente a veiculação de propaganda de qualquer natureza em bens cujo uso dependa de concessão ou permissão do poder público, como é o caso do transporte coletivo urbano.
O Impacto na Operação e o Quadro Proibitivo da Legislação Eleitoral
A publicação do áudio coincide com os relatórios das fiscalizações realizadas no dia da eleição. Durante a votação do segundo turno, eleitores relataram longa espera nas estações e escassez de veículos. Em fiscalizações de campo promovidas pelo Procon, foram identificados 944 ônibus retidos nas garagens sem circular, afetando diretamente a mobilidade da população.
Segundo a regulação disposta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), consubstanciada na Resolução nº 22.303/2006:
- Veículos de Concessionárias Públicas: É expressamente proibida a aposição de material de propaganda eleitoral (adesivos, cartazes ou faixas) em ônibus de frotas municipais ou intermunicipais, sob pena de infração à legislação eleitoral.
- Veículos Particulares: A legislação autoriza a colagem de adesivos microperfurados no para-brisa traseiro e adesivos comuns em dimensões restritas, desde que não ultrapassem os limites legais estabelecidos.
Diante do transtorno na operação, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) comunicou que a afixação irregular de adesivos provocou atrasos e interferências na saída dos coletivos, demandando ações para desorganizar a distribuição e retirar o material antes da liberação dos veículos.
Reação do Sindicato e Desdobramentos Junto aos Órgãos de Controle
Em nota de esclarecimento divulgada após a repercussão da gravação, o Sindicato dos Rodoviários de Salvador repudiou veementemente qualquer tentativa de associar a instituição à retenção voluntária ou paralisação de coletivos durante o pleito. A entidade afirmou que não atuou para prejudicar o direito de ir e vir do eleitorado e defendeu uma apuração séria e transparente sobre o ocorrido. No entanto, o comunicado oficial omitiu menções diretas sobre a veracidade do áudio e não detalhou a eventual participação de Fábio Primo nas orientações registradas.
A situação já desdobrou-se em frentes jurídicas e policiais:
- Investigação Policial e MPE: O relatório detalhando os 944 ônibus inativos foi formalmente encaminhado pelo Procon para a Polícia Federal, a Polícia Civil, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) e o Ministério Público Eleitoral.
- Notícia-Crime da PGE: A Procuradoria-Geral do Estado formalizou representação perante o Ministério Público Federal para apurar eventuais responsabilidades administrativas e operacionais referentes à gestão da frota.
- Preservação de Provas: A Justiça Eleitoral intimou a Prefeitura de Salvador, a Semob e as concessionárias de transporte a preservarem rigorosamente todos os registros, ordens de serviço e documentos de planejamento relativos ao dia da eleição.
As apurações seguem em andamento para determinar se a colagem de propaganda e a retida de frotas configuram crime eleitoral e improbidade administrativa por parte dos envolvidos.
Fonte: Metrópoles
*Imagem da capa editada por ia


















