Apagão da Internet no Irã dificulta avaliação da verdadeira extensão da repressão aos protestos
O bloqueio total da internet imposto pelas autoridades iranianas há mais de 60 horas transforma o país em um território de opacidade absoluta, tornando impossível determinar com precisão o real alcance da violência contra os manifestantes que protestam há mais de duas semanas.
O que começou como manifestações contra a crise econômica, inflação galopante e desvalorização do rial evoluiu para um movimento nacional de contestação ao regime teocrático, com atos em todas as 31 províncias.
De acordo com o blog do especialista em jornalismo internacional Américo Martins na CNN Brasil, o apagão digital – aliado à natureza extremamente repressiva do governo – impede a verificação independente dos números de vítimas e dificulta a comunicação entre os próprios opositores.
Entidades de direitos humanos baseadas no exterior afirmam ter confirmado mais de 500 mortes e mais de 10 mil presos, mas esses dados devem ser interpretados com cautela, pois as organizações frequentemente têm ligações com a oposição exilada e podem apresentar viés.
“O apagão da internet não é um efeito colateral da crise, mas um instrumento central da estratégia do regime para controlar a narrativa, silenciar vítimas e ganhar tempo.” — destaca o artigo.
A CNN e outras mídias internacionais verificaram a autenticidade de diversos vídeos que mostram grande violência nas ruas, incluindo disparos de armas de fogo contra multidões desarmadas, corpos amontoados em hospitais e necrotérios, e cenas de repressão brutal em cidades distantes de Teerã.
O governo iraniano atribui as mortes a “sabotadores” ligados a Israel e aos Estados Unidos, que estariam fomentando a violência – acusações difíceis de comprovar pela falta de acesso à informação.
Enquanto o bloqueio persiste, jornalistas estrangeiros continuam sem permissão para entrar no país, e o fluxo de dados cai para níveis mínimos (cerca de 1% do tráfego normal, conforme monitoramento da NetBlocks).
Relatos de ONGs como HRANA (Human Rights Activists News Agency) e Iran Human Rights apontam para uma escalada da repressão, com uso de munição real, franco-atiradores e drones de vigilância, em um contexto que alguns descrevem como “massacre em curso”.
“Enquanto a comunicação seguir bloqueada e jornalistas não tiverem acesso ao país, a real dimensão da violência no Irã continuará desconhecida. E possivelmente muito mais séria do que aquilo que hoje é possível confirmar.”
A crise representa o maior desafio interno ao regime dos aiatolás desde os protestos de 2022 pela morte de Mahsa Amini, com manifestações que ganharam força nacional e incluem pedidos de mudança radical no sistema político.
Líderes internacionais, incluindo da União Europeia, condenam a violência desproporcional e o uso do apagão como ferramenta de repressão.


















