Lula e Trump têm primeira conversa telefônica desde a ação dos EUA na Venezuela e marcam encontro em Washington
Em uma ligação de cerca de 50 minutos nesta segunda-feira (26), o petista Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abordaram a crise na Venezuela, a possibilidade de o Brasil integrar o Conselho da Paz proposto por Trump e temas econômicos bilaterais.
Os dois combinaram uma visita presidencial de Lula à Casa Branca nos próximos meses.
PRINCIPAIS PONTOS DA CONVERSA:
Conselho de Paz: Lula sugeriu que o Conselho de Paz, proposto pelos EUA e lançado por Trump em Davos na semana passada, se limite ao conflito em Gaza, em vez de abranger outras zonas de conflito. Ele também pediu a inclusão de um assento para a Palestina no conselho, criticando a proposta inicial por potencialmente restringir o debate global e dar interferência excessiva aos EUA.
Venezuela: Lula defendeu a “estabilidade” na Venezuela durante a conversa. Essa foi a primeira ligação entre os dois desde a invasão dos EUA ao país, segundo algumas fontes.
Reformas na ONU: Os líderes discutiram a necessidade de reformas abrangentes na Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo a expansão dos membros permanentes do Conselho de Segurança (atualmente cinco com poder de veto), priorizando isso em vez de criar um novo conselho.
Relações bilaterais e economia: Eles trocaram informações sobre indicadores econômicos positivos de ambos os países, destacando que o crescimento econômico dos EUA e do Brasil beneficia a região. Também falaram sobre o fortalecimento das relações entre os dois países.
Visita de Lula aos EUA: Combinaram uma visita de Lula aos Estados Unidos, com data a ser marcada para pelo menos março, após viagens do presidente brasileiro à Índia e à Coreia do Sul. Trump mostrou interesse nessa reunião na Casa Branca.
A conversa, realizada no mesmo dia em que o governo brasileiro divulgou nota oficial, marcou o primeiro contato direto entre os dois chefes de Estado após a intervenção militar norte-americana que depôs Nicolás Maduro no início de janeiro.
Lula já havia criticado publicamente a ação dos EUA, classificando-a como “falta de respeito” e afirmando que “a América Latina não vai abaixar a cabeça para ninguém”.
Segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto, “No curso da conversa, Lula e Trump trocaram impressões sobre a situação na Venezuela. O presidente brasileiro ressaltou a importância de preservar a paz e a estabilidade da região e de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano”.
O petista aproveitou o diálogo para defender, mais uma vez, a reforma do Conselho de Segurança da ONU — bandeira histórica desde seu primeiro mandato, em 2003.
Lula argumentou que o mundo atravessa um momento “muito crítico” do ponto de vista político e que a Carta das Nações Unidas estaria sendo “rasgada”, com a imposição da “lei do mais forte” nas relações internacionais.
Conselho da Paz: Brasil não confirma participação
Outro ponto central da ligação foi o convite de Trump para que o Brasil integre o novo Conselho da Paz, iniciativa lançada pelo governo americano.
Lula não deu resposta definitiva e sugeriu que o órgão se restringisse a questões humanitárias, com foco especial na Faixa de Gaza, e que incluísse um assento permanente para a Palestina nas discussões.
Fontes da diplomacia brasileira ouvidas pela TV Globo indicam que o Itamaraty não pretende aceitar de imediato um estatuto unilateral elaborado por Washington, no qual os países apenas adeririam a regras pré-definidas e sob presidência fixa dos EUA.
A expectativa é que o governo brasileiro peça esclarecimentos técnicos sobre possíveis brechas jurídicas antes de qualquer posicionamento oficial.
Economia e cooperação em segurança
Os presidentes também avaliaram positivamente o cenário econômico dos dois países. Trump destacou que o crescimento simultâneo de Brasil e Estados Unidos beneficia toda a região das Américas.
Lula mencionou o bom relacionamento construído nos últimos meses, que já resultou na redução significativa de tarifas sobre produtos brasileiros exportados para os EUA.
O brasileiro manifestou interesse em aprofundar a parceria nas áreas de combate à lavagem de dinheiro, tráfico de armas, congelamento de ativos de organizações criminosas e troca de informações financeiras. De acordo com o Planalto, Trump recebeu bem as propostas.
Agenda para a visita a Washington
A data da viagem de Lula a Washington ainda será definida. O presidente tem compromissos internacionais marcados para fevereiro, com viagens à Índia e à Coreia do Sul.
Somente após essas agendas é que os governos brasileiro e americano devem acertar os detalhes do encontro presencial.
A conversa telefônica reforça a tentativa de diálogo em meio a tensões regionais e internacionais, com o Brasil mantendo posição crítica à intervenção militar na Venezuela e defendendo multilateralismo e reformas na governança global


















