Em um apelo direto aos brasileiros, transmitido ao vivo por um programa de televisão estatal na quinta-feira (5/12), o presidente Nicolás Maduro, no poder desde 2013 o ditador convocou o povo do Brasil a defender a soberania de seu país contra o que ele descreve como uma campanha de “agressão imperialista” liderada pelos Estados Unidos.
Falando em português misturado a expressões em espanhol, Maduro agradeceu ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por um boné simbólico enviado em homenagem às “organizações comunitárias socialistas” de Caracas, e ergueu o tom de resistência em meio a uma escalada de tensões regionais.
“Muito obrigado, Brasil, muito obrigado, MST. A luta continua, a vitória é nossa. Viva a unidade do povo brasileiro, viva a unidade com o povo venezuelano. Povo do Brasil, saiam às ruas para apoiar a Venezuela em sua luta pela paz e soberania. Estou lhes dizendo toda a verdade: temos o direito à paz com soberania. Viva o Brasil”, declarou o líder chavista, gesticulando com o acessório nas mãos e invocando laços históricos entre as nações sul-americanas.
A mensagem, que ecoou em redes sociais e canais alinhados ao governo bolivariano, surge em um momento de pressão máxima: enquanto Maduro discursava, forças militares dos EUA anunciavam mais um ataque a um barco supostamente ligado ao narcotráfico no Leste do Pacífico, elevando o tom de uma ofensiva que Caracas classifica como pretexto para uma intervenção.
Ofensiva americana no Caribe e Pacífico: 21 ataques e 83 mortes
A declaração de Maduro veio horas após o Departamento de Defesa dos EUA confirmar o 22º bombardeio em uma série de operações iniciadas em setembro, que já resultaram em 83 mortes – incluindo o incidente mais recente, que afundou uma embarcação com supostos traficantes de drogas perto da costa venezuelana.
Sob o comando do presidente Donald Trump e do secretário de Defesa Pete Hegseth, Washington justifica as ações como combate ao “narcoterrorismo”, apontando grupos como o Tren de Aragua, uma gangue venezuelana designada como organização terrorista estrangeira em janeiro, e o Exército de Libertação Nacional (ELN), guerrilha colombiana. Mas o governo Maduro rebate veementemente, alegando que os ataques são uma manobra para derrubá-lo e pilhar recursos como o petróleo venezuelano.
Nos últimos meses, os EUA intensificaram as operações contra embarcações que supostamente traficavam drogas perto da costa venezuelana, expandindo o foco do Mar do Caribe para o Oceano Pacífico Oriental, com bombardeios em águas internacionais próximas à Colômbia, Equador e Peru. Até o ataque da quinta-feira (04/12), os americanos haviam lançado 21 ataques a barcos no Caribe e no Pacífico, matando 83 pessoas – número que inclui um sobrevivente desaparecido presumido morto e exclui dois resgatados em uma operação anterior.
Trump, que assumiu o segundo mandato em janeiro de 2025, tem usado suas redes sociais para divulgar vídeos dos mísseis atingindo alvos, como o primeiro strike em 2 de setembro, que destruiu um speedboat com 11 ocupantes, descrito pelo presidente como “carregado de narcóticos a caminho dos EUA”.
Internamente, o governo Trump enfrenta questionamentos no Congresso sobre a legalidade desses ataques, com democratas e grupos de direitos humanos acusando violações ao direito internacional – incluindo alegações de “crimes de guerra” em um caso de setembro, quando sobreviventes agarrados aos destroços foram alvejados em um segundo bombardeio para “eliminar a tripulação inteira”, conforme reportagens do Washington Post.
A Anistia Internacional e a ONU cobram transparência, questionando a falta de evidências públicas ligando as vítimas ao tráfico e alertando que a maioria da cocaína para os EUA vem da Colômbia via Pacífico, não da Venezuela pelo Caribe.
Washington já reuniu cerca de 15 mil militares na região em uma mobilização massiva, que inclui o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, além de navios de guerra, caças F-35, bombardeiros B-52, drones MQ-9 Reaper e um submarino nuclear.
Recentemente, o líder americano anunciou que os Estados Unidos pretendiam lançar uma fase de operações terrestres das operações contra o narcotráfico, o que Caracas interpreta como ameaça direta de invasão. “Donald Trump está tentando derrubá-lo e que os cidadãos e os militares da Venezuela vão resistir”, repetiu Maduro em pronunciamentos anteriores, mobilizando milícias populares e aliados regionais como o presidente colombiano Gustavo Petro, que defendeu a “soberania sul-americana”.
Enquanto o MST e movimentos de esquerda no Brasil ecoam o chamado de Maduro por “paz com soberania”, a oposição venezuelana exilada, liderada por figuras como Edmundo González e Maria Corina Machado, acusa o regime de usar a retórica anti-imperialista para desviar de crises internas, como a inflação galopante e a reforma constitucional prometida para um “Estado comunal”.
Com eleições regionais previstas para 2025, o cerco americano pode ser o estopim para uma nova onda de sanções ou, temem analistas, um conflito aberto na América do Sul. Por ora, as ruas de Caracas fervem com marchas pró-Maduro, e o boné do MST vira símbolo improvável de uma batalha global por influência.


















