Dono do Banco Master admite à PF crise de liquidez e modelo de negócios baseado no FGC
Daniel Vorcaro, controlador e dono do Banco Master, revelou em depoimento à Polícia Federal (PF) que a instituição financeira enfrentava problemas de liquidez no período anterior à sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC).
O banqueiro descreveu a situação como “momentânea, e não estrutural”, afirmando que o banco honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro.
No depoimento, acessado por meio de transcrição, Vorcaro explicou que o plano de negócios do Master era 100% baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ele defendeu a estratégia, declarando: “O plano de negócio do Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado, porque essa era a regra do jogo.”
O Banco Master, conhecido por oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rendimentos elevados — frequentemente acima de 110% a 120% do CDI —, captava recursos agressivamente e os direcionava para ativos como crédito consignado, cédulas de crédito bancário (CCBs) e operações com originadores terceirizados.
Segundo Vorcaro, o modelo dependia fortemente da garantia do FGC, mecanismo que protege investidores em caso de intervenção ou falência de instituições financeiras.
A crise de liquidez se agravou após alterações nas regras do FGC, aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional em agosto de 2024, que aumentaram exigências de segurança e limitaram práticas consideradas de alto risco.
Vorcaro alegou que essas mudanças, somadas a uma suposta campanha de descrédito por parte de concorrentes, pressionaram o banco. Ele informou ter aportado quase R$ 6 bilhões de patrimônio pessoal para sustentar as operações durante o período crítico.
O Banco Central decretou a liquidação do Master em novembro de 2025, citando graves violações às normas do sistema financeiro nacional e incapacidade de honrar compromissos.
Desde 19 de janeiro de 2026, o FGC iniciou o pagamento de ressarcimentos a cerca de 600 mil credores, totalizando R$ 41 bilhões — o maior valor da história do fundo, com limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
A PF investiga o caso no âmbito da Operação Compliance Zero, apurando possíveis fraudes bilionárias, incluindo suspeitas de venda de carteiras de crédito inexistentes ou fraudulentas. Vorcaro nega irregularidades e atribui a crise principalmente às mudanças regulatórias no FGC e à redução forçada no volume de originação de créditos (de R$ 400-500 milhões mensais para patamares menores).
O depoimento de Vorcaro, realizado no final de 2025, integra inquérito que também examina tentativas de venda do banco ao Banco de Brasília (BRB) e conversas com autoridades do Distrito Federal. O caso ganhou repercussão nacional devido ao impacto nos investidores e ao recorde de indenizações pagas pelo FGC.
Especialistas do setor financeiro destacam que o modelo adotado pelo Master ilustra riscos de dependência excessiva de garantias públicas como o FGC, especialmente quando combinada com ativos de baixa liquidez.


















