Internet quebrou o monopólio das grandes redações; exigir formação universitária pode reduzir pluralidade e reforçar barreiras ao exercício da profissão
A discussão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo voltou ao centro do debate público nesta quinta-feira (27 de agosto de 2026). O Supremo Tribunal Federal (STF) analisa a possibilidade de restabelecer uma exigência que remonta a uma norma de 1969, editada por uma Junta Militar. A proposta, defendida por alguns ministros, tem gerado críticas por evocar mecanismos de controle da imprensa da época da ditadura e por potencialmente restringir quem pode atuar na área.

A internet transformou o acesso à informação. Antes, as grandes empresas de mídia detinham o quase monopólio da disseminação de notícias. Hoje, qualquer pessoa com acesso à rede pode publicar, investigar e alcançar públicos amplos. Exigir diploma universitário como condição para exercer o jornalismo criaria novas barreiras de entrada, reduzindo a competição e concentrando a atividade em quem passou por faculdades específicas. Nenhuma universidade, porém, garante honestidade, coragem ou independência — atributos essenciais ao ofício.
Dados de um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), iniciado em 2022 e atualizado posteriormente, mostram que as redações brasileiras são majoritariamente ocupadas por profissionais que se identificam como de esquerda. Entre os filiados a partidos, a predominância ideológica se repete. Isso reforça a percepção de que o controle sobre a narrativa já existe de forma informal nas estruturas tradicionais.

A exigência formal do diploma não atingiria necessariamente esses profissionais já estabelecidos, mas poderia excluir vozes independentes, blogueiros e reporters autônomos que não se enquadram no modelo clássico de redação.
A concorrência ampliada pela internet expôs limitações e vieses de veículos tradicionais. Exemplos históricos de omissões ou erros da “imprensa respeitável” são numerosos: desde reportagens seletivas até a dificuldade de abordar temas que desafiam interesses consolidados. A verdade, argumenta-se, emerge do confronto aberto de ideias, da pluralidade de fontes e da possibilidade de qualquer cidadão questionar e verificar informações — não de um filtro burocrático imposto por diploma.
Exigir formação específica pode criar a ilusão de qualidade, mas na prática restringe o campo a quem aceita as regras do jogo institucional. Jornalistas independentes, muitos sem diploma formal, têm desempenhado papel relevante na apuração de fatos que as grandes redações evitam ou demoram a abordar.
A liberdade de expressão e o direito de informar não deveriam depender de um certificado universitário, mas da capacidade de produzir conteúdo verificável e responsável.
O debate no STF ocorre em um momento em que a confiança na mídia tradicional enfrenta desafios. Em vez de reforçar monopólios ou criar novas barreiras, a melhor resposta à desinformação continua sendo a circulação livre de informações, o escrutínio público e a competição de ideias. Qualquer tentativa de limitar quem pode jornalizar corre o risco de proteger estruturas antigas em detrimento da pluralidade que a internet tornou possível.
Fonte: Poder360
*Imagem da capa gerada por IA


















