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Como o SISTEMA explica a virada de Lula

Mobilização de quase 5 milhões de eleitores, queda da abstenção e recuperação no Sudeste e Nordeste explicam como o petista transformou desvantagem de 2,2 milhões de votos no primeiro turno em margem de 4,4 milhões no segundo turno das eleições de 2026

O petista Lula da Silvadeixou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 com 2,2 milhões de votos a menos que Flávio Bolsonaro (PL). Três semanas depois, no segundo turno realizado no domingo, 25 de outubro, Lula se reelegeu com 4,4 milhões de votos a mais que o adversário. Essa diferença representa o dobro da vantagem que o petista obteve sobre Jair Bolsonaro em 2022, na disputa mais apertada da história recente.

A chave da virada está na entrada em cena de quase 5 milhões de novos votos. Desse total, 3 milhões vieram da redução da abstenção e outros 1,8 milhão da queda no número de votos brancos e nulos. Somados à votação dos demais candidatos do primeiro turno, esses números abriram uma margem de 14,1 milhões de votos em disputa entre os dois finalistas.

No saldo final, Lula capturou 10,4 milhões de votos a mais em relação ao primeiro turno — o equivalente a três de cada quatro novos votos disponíveis. Flávio Bolsonaro avançou 3,7 milhões de votos, ou seja, um de cada quatro. Essa diferença foi suficiente para o presidente superar a vantagem inicial do adversário e ainda ampliar a distância.

Dos novos votos obtidos por Lula, 4,8 milhões vieram do Sudeste, região em que a votação do petista cresceu mais de sete pontos percentuais. O presidente também avançou nas demais regiões do país. Já o desempenho de Flávio ficou levemente abaixo do resultado obtido pelo pai, Jair Bolsonaro, em todo o território nacional, com exceção do Sul.

O mapa final dos votos ficou parecido com o de 2022. O segundo turno de Lula pode ser interpretado como uma batalha para recuperar uma votação semelhante à que ele alcançou quatro anos antes. Sem a mobilização de novos eleitores, no entanto, o petista não teria conseguido virar o jogo se dependesse apenas de quem já havia votado no primeiro turno.

1) Eleitorado mobilizado: quase 5 milhões de votos a mais

A campanha de Lula apostou, logo após o primeiro turno, em tirar as pessoas de casa para votar. Os números mostram que a estratégia funcionou.

Em todas as eleições presidenciais até 2018, a abstenção no segundo turno era maior que no primeiro. A primeira vez que isso não aconteceu foi em 2022, quando 1,3 milhão de pessoas que se abstiveram na primeira rodada compareceram no segundo turno. Em 2026, o movimento foi mais que o dobro: 3 milhões de pessoas.

O número de votos brancos e nulos também caiu entre os dois turnos, passando de 6 milhões para 4,2 milhões. Isso representou 1,8 milhão de votos úteis a mais.

O maior aumento de votos válidos ocorreu no Sudeste, com 2,4 milhões de novos eleitores, seguido pelo Nordeste, com 1,5 milhão. A região Sul registrou quase 700 mil votos a mais e o Centro-Oeste, mais de 250 mil. O Norte foi a única região em que o número de votos caiu entre os turnos: 145 mil pessoas deixaram de votar.

No exterior, a votação bateu recorde. A taxa de abstenção fora do Brasil é historicamente mais alta, em parte pela característica do processo, que ocorre apenas em cidades com representação diplomática — em muitos casos, exige deslocamento. Vídeos virais nas redes sociais neste final de semana mostraram exatamente esse esforço. O número de votos válidos no exterior subiu 12%.

Quanto maior o porte do município, maior foi o crescimento de votos válidos. Cidades com até 50 mil habitantes tiveram alta de 3,4%. Nas cidades com mais de um milhão de habitantes, o aumento chegou a 4,8%.

2) Flávio ficou atrás do pai em todas as regiões, exceto no Sul

Flávio Bolsonaro teve desempenho melhor que o pai no primeiro turno. Alcançou 47% dos votos válidos, contra 43,2% de Jair em 2022 — uma diferença de 3,8 pontos percentuais.

No segundo turno, porém, Flávio ficou atrás. Fechou com 48,2% dos votos válidos, enquanto Jair havia obtido 49,1% em 2022. Uma perda de 0,9 ponto.

Em 2022, Jair Bolsonaro saiu do primeiro turno com 6,2 milhões de votos a menos que Lula. No segundo turno, conquistou 7 milhões de votos a mais, enquanto Lula avançou menos da metade. Com isso, Jair colou no adversário e terminou atrás por cerca de 2 milhões de votos.

Com Flávio ocorreu o oposto. Ele saiu na frente, mas avançou pouco no segundo turno: apenas 3,7 milhões de novos votos, enquanto Lula somou 10,4 milhões a mais.

O crescimento de Flávio no segundo turno corresponde a menos da metade dos votos dados aos candidatos derrotados no primeiro turno. Só Augusto Cury (Avante), que declarou apoio a Flávio, teve 3,4 milhões de votos. Ronaldo Caiado (PSD), que também apoiou o candidato do PL, conquistou 2,6 milhões.

O caso de Goiás oferece pistas do que ocorreu. Foi o único estado em que houve uma terceira via de fato, com Caiado, ex-governador, obtendo 12% dos votos. Isso transformou Goiás no estado com mais votos em disputa no segundo turno. No balanço final, Lula cresceu 9 pontos percentuais no estado. Flávio avançou 6 pontos.

Não é possível afirmar com precisão como ocorreu a transferência de votos. Caiado pode ter transferido mais votos para Lula do que para Flávio. A chegada de novos eleitores, que não haviam votado no primeiro turno, pode ter suavizado a migração para o candidato do PL. Há ainda a possibilidade de votos que migraram diretamente de Flávio para Lula. Esse movimento não se restringiu a Caiado nem a Goiás, mas ocorreu em todo o país.

Alguns dados indicam que houve, de fato, virada de votos. Em uma de cada seis cidades brasileiras, Flávio perdeu votos em números absolutos em comparação com o primeiro turno.

3) Sudeste é onde Lula mais cresceu, com 4,8 milhões de novos votos

Foi no Sudeste que Lula mais ampliou sua votação entre o primeiro e o segundo turno.

Dos 10,4 milhões de novos votos do petista, 4,8 milhões vieram dessa região. Em São Paulo foram 2,6 milhões — mais de 800 mil só na capital. Em Minas Gerais, o avanço chegou a 1,1 milhão de votos. No Rio de Janeiro, cerca de 900 mil.

O Sudeste já havia sido decisivo para a vitória de Lula em 2022 e repetiu o papel em 2026. Sem o aumento de votos na região, nem mesmo a vantagem do petista no Nordeste seria suficiente para a reeleição. Lula fechou o primeiro turno com 39,7% no Sudeste. No segundo turno, alcançou 47,2%.

Flávio Bolsonaro somou 1,9 milhão de votos a mais no Sudeste em relação ao primeiro turno. Saiu de 51,4% no início de outubro para 52,8% no segundo turno. Ainda assim, ficou abaixo do resultado do pai, que terminou 2022 com 54,3% na região.

4) Lula recuperou espaço no Nordeste; Flávio caiu

O balanço final do Nordeste ajuda a compreender o movimento dos votos no segundo turno. No primeiro turno, os demais candidatos somaram 1,8 milhão de votos na região. No segundo, mais 1,5 milhão de pessoas foram votar. Foi a segunda região do país em que a abstenção mais caiu, atrás apenas do Sudeste.

Havia, portanto, 3,3 milhões de votos a mais em disputa no Nordeste. Lula levou 88% desses votos. Flávio ficou com apenas 12%.

Com isso, o presidente recuperou espaço na região. No primeiro turno, teve 63,8% dos votos nordestinos. No segundo, chegou a 69,4% — crescimento de mais de cinco pontos percentuais. O resultado é praticamente idêntico ao de 2022, quando alcançou 69,3%.

Em números absolutos, foram quase 3 milhões de votos a mais. Na Bahia, onde houve redução no fluxo do transporte público no dia da votação, Lula somou 820 mil votos a mais. Em Pernambuco, foram mais de 560 mil votos novos. No Ceará, cerca de 480 mil.

Flávio inverteu a tendência de alta que ele e o pai vinham registrando no Nordeste. No primeiro turno, teve 30,85% dos votos válidos. No segundo, 30,63%. Ficou um pouco abaixo do resultado do pai em 2022.

Em números absolutos, Flávio somou cerca de 400 mil votos a mais no Nordeste. No Maranhão, porém, obteve menos votos do que no primeiro turno.

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