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Conflito na Venezuela pode virar Vietnã, diz Amorim

Invasão dos EUA à Venezuela pode gerar ‘conflito como o do Vietnã’, alerta assessor de Lula ao ‘Guardian’

O assessor de política externa do petista Lula da Silva, Celso Amorim, alertou que uma invasão ou ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela poderia mergulhar a América do Sul em um conflito regional semelhante ao da Guerra do Vietnã. A declaração foi dada em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada nesta segunda-feira (8/12), em meio à escalada de tensões bilaterais sob o governo de Donald Trump.

Amorim classificou a recente decisão de Trump de ordenar o fechamento do espaço aéreo venezuelano como “um ato de guerra” e “totalmente ilegal”, expressando temores de que a crise possa se intensificar nas próximas semanas. 

“A última coisa que queremos é que a América do Sul se torne uma zona de guerra – e uma zona de guerra que inevitavelmente não seria apenas uma guerra entre os EUA e a Venezuela. Acabaria tendo envolvimento global e isso seria realmente lamentável”, disse o diplomata ao jornal.

Ele previu que, em caso de uma “invasão de verdade”, o cenário seria catastrófico: “Se houvesse uma invasão, uma invasão de verdade… acho que sem dúvida veríamos algo semelhante ao Vietnã – em que escala é impossível dizer.” 

Amorim argumentou que, apesar das críticas ao presidente Nicolás Maduro, até governos inimigos dele na região se uniram contra uma intervenção estrangeira. 

“Eu conheço a América do Sul… todo o nosso continente existe graças à resistência contra invasores estrangeiros”, afirmou, prevendo um ressurgimento do antimericanismo na América Latina, semelhante ao gerado por interferências dos EUA durante a Guerra Fria.

O Guardian destaca que, embora o Brasil não tenha reconhecido a vitória de Maduro nas eleições presidenciais de 2024 – considerada fraudulenta por observadores internacionais –, o país se opõe firmemente a uma mudança de regime por meio de força militar. 

“Se cada eleição questionável desencadeasse uma invasão, o mundo estaria em chamas”, observou Amorim. 

Ele enfatizou que qualquer decisão de Maduro de deixar o poder deve ser voluntária: “Se Maduro chegar à conclusão de que deixar o poder é o melhor para ele e para a Venezuela, será uma conclusão dele… O Brasil jamais imporá isso; jamais dirá que isso é uma exigência… Não vamos pressionar Maduro a renunciar ou abdicar.”

O diplomata admitiu que as relações entre Brasil e Venezuela não são mais “calorosas ou intensas” como no passado. 

Especula-se que Maduro possa buscar exílio em nações como Cuba, Turquia, Catar ou Rússia. 

Sobre a possibilidade de asilo no Brasil, Amorim evitou especulações para “não parecer que estamos estimulando” a ideia, mas defendeu a tradição regional: “No entanto, o asilo é uma instituição latino-americana [para] pessoas tanto de direita quanto de esquerda.” 

Ele citou o caso de 2005, quando o então presidente equatoriano Lucio Gutiérrez foi acolhido no Brasil após ser deposto. “Chegamos a enviar um avião para buscá-lo”, recordou Amorim, que na época era ministro das Relações Exteriores.

Amorim expressou esperança em uma solução diplomática liderada por Trump, sugerindo um referendo sobre a permanência de Maduro no poder, similar ao realizado em 2004 com Hugo Chávez. “[O então presidente Hugo] Chávez aceitou a ideia, com alguma relutância, mas aceitou. Houve um referendo e ele venceu. Não sei quem venceria agora”, disse ao Guardian.

A entrevista ocorre em um contexto de alta tensão entre Washington e Caracas. Trump intensificou a pressão contra Maduro nos últimos quatro meses, dobrando a recompensa por informações que levem à sua captura e posicionando navios de guerra próximos à costa venezuelana. 

Os EUA realizaram ataques aéreos contra barcos acusados de transportar drogas, e relatos indicam que, em 21 de novembro, Trump deu um ultimato a Maduro em uma ligação telefônica, exigindo que ele deixasse o país – o que o líder venezuelano nega, atribuindo o foco americano ao controle de reservas de petróleo.

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