Segundo dados do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, parcela de devedores vulneráveis alcançou 17% dos tomadores de crédito, impulsionada pelo avanço das modalidades sem garantia e pela forte pressão sobre famílias de baixa renda
O retrato da vulnerabilidade financeira das famílias brasileiras atingiu patamares críticos no país. Dados do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), divulgado pelo Banco Central (BC) no primeiro semestre de 2026, revelam que o contingente de devedores em situação de risco — popularmente classificados como superendividados — deu um salto de 75% ao longo dos últimos cinco anos. O volume de pessoas nessa condição subiu de 9,7% em junho de 2021 para alcançar a marca de 20,3 milhões de brasileiros em junho de 2026.

Esse contingente expressivo representa atualmente 17% do total de devedores ativos no Sistema Financeiro Nacional (SFN), mostrando uma trajetória ascendente contínua quando comparado a junho de 2025 (14,7%) e a dezembro do mesmo ano (16,5%).
Como o Banco Central Mapeia o Endividamento de Risco
A metodologia aplicada pela autoridade monetária para enquadrar um devedor na categoria de risco financeiro monitora o atendimento cumulativo a critérios específicos de vulnerabilidade. Para ser classificado nesse grupo, o consumidor precisa preencher pelo menos dois dos quatro critérios estipulados pelo BC:
- Inadimplência Prolongada: Existência de parcelas de operações de crédito com débitos e atrasos superiores a 90 dias.
- Comprometimento Severo da Renda: Destinação de mais de 50% dos rendimentos mensais exclusivamente para o pagamento e amortização de dívidas.
- Uso Múltiplo de Crédito sem Garantia: Recurso concomitante e simultâneo ao cheque especial, empréstimo pessoal sem consignação em folha e crédito rotativo do cartão.
- Renda Residual Abaixo da Pobreza: Saldo orçamentário restante após a liquidação das obrigações financeiras mensais situado abaixo do limite da linha de pobreza.
A autoridade monetária esclarece que a classificação não implica que a totalidade dos 20,3 milhões de cidadãos esteja inadimplente de fato, mas sinaliza uma fragilidade estrutural grave com alto potencial de insolvência.
O Impacto Desproporcional nas Famílias de Baixa Renda
Os indicadores do Banco Central escancaram a assimetria do endividamento no orçamento doméstico conforme a faixa salarial dos cidadãos. O comprometimento orçamentário atinge níveis alarmantes justamente entre as populações de menor renda:
1. População de Até Dois Salários Mínimos
No universo que engloba 61,2 milhões de brasileiros que ganham até dois salários mínimos, o comprometimento global de renda com dívidas alcançou a marca de 42% em junho de 2026. Desses recursos, 15% da renda familiar fica totalmente retida apenas para a quitação das obrigações do cartão de crédito.
2. Faixas de Renda Mais Altas
Em contraste, a fatia do rendimento comprometida com obrigações de crédito entre cidadãos que auferem renda superior a dez salários mínimos situa-se em 18,6% do orçamento.
Expansão das Linhas sem Garantia e Fatores de Pressão
O relatório do BC destaca que a escalada do endividamento tem sido alimentada pela contratação de modalidades de crédito sem garantia — como cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal não consignado —, linhas que mantêm expansão contínua no mercado mesmo sob a vigência de patamares elevados de juros. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, manifestou especial preocupação com a insensibilidade de crescimento dessas linhas frente aos preços praticados.
Adicionalmente, análises mencionadas no estudo apontam que o avanço das apostas de quota fixa (as chamadas bets, atualmente sob proibição) atuou como um fator extra de drenagem do orçamento das famílias brasileiras, movimentando somas estimadas em R$ 24,1 bilhões mensais.
Pacote do BC para Conter Ofertas Agressivas e Proteger o Consumidor
Diante do diagnóstico de agravamento da fragilidade financeira das famílias, a autoridade monetária deu início à implementação de medidas regulatórias destinadas a coibir a oferta inadequada e abusiva de crédito:
- Resoluções e Transparência: Normas recentes publicadas em outubro de 2026 impõem novas exigências às instituições financeiras, obrigando-as a conferir maior clareza na formalização dos contratos.
- Controle pelo Consumidor: As regras preveem a disponibilização obrigatória de mecanismos para que o próprio cliente possa bloquear o recebimento de anúncios e propostas ostensivas de empréstimos.
- Painel Consolidado de Dívidas: Implementação de interfaces digitais onde o usuário poderá visualizar de forma unificada e transparente todas as suas obrigações e limites contratados.
- Trava nas Operações via Pix: Regulamentações projetadas para entrarem em vigor em 2027 limitarão a concessão automática de modalidades de crédito durante transações financeiras iniciadas na plataforma Pix.
O conjunto de ações busca estancar o ciclo automático de concessão de crédito inadequado e oferecer instrumentos de defesa para impedir o colapso orçamentário dos devedores mais vulneráveis no país.
Fonte: Folha de São Paulo
*Imagem da capa editada por IA

















