País tem oitavo líder em menos de uma década
O Congresso do Peru aprovou nesta terça-feira (17) uma moção de censura que destituiu o presidente interino José Jerí, apenas quatro meses após ele assumir o cargo. A votação registrou 75 votos a favor, 24 contra e 3 abstenções, marcando mais um capítulo na grave instabilidade política peruana.
Ouça a analise da jornalista da CNNBRASIL
Jerí, de 39 anos e filiado a uma coalizão de direita, tornou-se presidente em outubro de 2025 ao suceder Dina Boluarte (2022-2025), destituída pelo mesmo Congresso por “incapacidade moral permanente” em meio a escândalos de corrupção e crise de segurança. Com a MOÇÃO de censura, Jerí perde automaticamente a Presidência (já que exercia o cargo na condição de presidente do Congresso), declarando-se vacante a chefia do Executivo.
CHIFAGATE

A crise política no Peru se intensificou novamente em questão de semanas. O que começou com a divulgação de vídeos gravados na noite de 26 de dezembro acabou desencadeando uma tempestade institucional que depôs José Jerí do poder apenas quatro meses após ele assumir a presidência, na sequência da renúncia de Dina Boluarte. O caso foi rapidamente apelidado de “Chifagate “, uma referência ao restaurante chinês onde ocorreu o primeiro dos encontros suspeitos.
As imagens — que mostravam o então presidente entrando em um restaurante chinês em San Borja usando um capuz para se encontrar com o empresário chinês Zhihua Yang — desencadearam investigações por parte da promotoria, moções parlamentares e uma rápida erosão de seu já frágil apoio político. Isso foi agravado por acusações anteriores, questionamentos sobre contratos governamentais e uma queda acentuada em sua popularidade. Em menos de 120 dias, o governo que havia prometido avançar “a todo vapor” estava mergulhado em escândalo.

Em 26 de dezembro de 2025, José Jerí foi flagrado por câmeras de segurança entrando em um restaurante chinês de propriedade de Zhihua Yang, usando um capuz e acompanhado por uma escolta presidencial. Dias depois, em 6 de janeiro, ele se encontrou novamente com o mesmo empresário no Mercado Capón, no bairro chinês de Lima. Nenhum desses encontros constava na agenda oficial nem nos registros de transparência da Presidência da República.
Após a divulgação dos vídeos, o então chefe de Estado reconheceu o encontro e ofereceu um pedido público de desculpas pela forma como entrou no local. “Admito meu erro e peço desculpas publicamente por ter entrado daquela maneira, encapuzado, e por isso ter gerado suspeitas e dúvidas sobre meu comportamento “, declarou. No entanto, ele negou qualquer irregularidade e afirmou que os encontros foram “acidentais”.

O Ministério Público abriu um inquérito preliminar sobre alegado tráfico de influência e patrocínio ilegal. Simultaneamente, o Congresso convocou o presidente para explicar a natureza dos encontros e se estes estavam relacionados com contratos governamentais. Uma das principais questões girava em torno da alteração das regras de licitação de uma licitação da Autoridade de Transportes Urbanos (ATU) para a aquisição de 8.000 câmaras de videovigilância por 112 milhões de soles, realizada pouco depois do encontro no restaurante chinês.
O nome de Zhihua Yang também era conhecido em investigações anteriores. Em 2022, uma comissão parlamentar que investigava supostas irregularidades em contratos entre empresas chinesas e o governo peruano mencionou empresas ligadas ao empresário como parte de uma rede conhecida como “Clube do Dragão”. Além disso, registros oficiais confirmaram as visitas de Yang ao Palácio do Governo em diversas ocasiões entre outubro de 2025 e janeiro de 2026.
ENTENDA MAIS
O presidente em exercício do Congresso, Fernando Rospigliosi, anunciou o resultado:
“A Mesa Diretora declara a vacância do cargo de presidente do Congresso da República e, em consequência, encontra-se vago o cargo de Presidente da República.”
“La mesa directiva declara la vacancia del cargo de presidente del Congreso de la República y en consecuencia se encuentra vacante el cargo de Presidente de la República.”
A queda de Jerí foi impulsionada por sete moções de censura apresentadas por diversas bancadas, motivadas por investigações da Fiscalía (Ministério Público) por suposto tráfico de influência, não declaração de reuniões secretas com empresários chineses (incluindo Yang Zhihua e Ji Wu Xiaodong, sob escrutínio governamental) e irregularidades administrativas, como contratação de jovens sem qualificação para cargos próximos.
A destituição ocorre a menos de dois meses das eleições gerais (previstas para 12 de abril de 2026), com transferência de poder marcada para 28 de julho. O Congresso convocou sessão extraordinária para quarta-feira (18), às 16h (horário de Brasília), para eleger um novo presidente do Legislativo, que assumirá interinamente até a posse do eleito.
O Peru vive uma crise crônica desde 2016: Jerí é o oitavo chefe de Estado em menos de dez anos (incluindo interinos), após nomes como Pedro Castillo (preso após tentativa de autogolpe), Martín Vizcarra, Manuel Merino, Francisco Sagasti, Pedro Pablo Kuczynski, Ollanta Humala e outros. A instabilidade reflete polarização, corrupção endêmica e incapacidade do Congresso fragmentado de sustentar governos.

















