Enquanto empresas tradicionais enfrentam crise e demissões em massa, governo firma contrato de 15 anos com grupo J&F para energia a carvão
O cenário empresarial brasileiro registra um novo capítulo de dificuldades no varejo. O Grupo Casas Bahia, em meio a pedido de recuperação judicial protocolado no domingo (16), demitiu cerca de 3 mil funcionários e encerrou as operações de quase 300 lojas em agosto. As medidas fazem parte de um plano de reestruturação para reduzir custos e enfrentar o que a própria empresa descreve como a pior crise financeira de sua história.


Segundo o pedido apresentado à Justiça de São Paulo, o grupo busca renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia aponta juros elevados, queda no consumo de bens duráveis, aumento da inadimplência e os efeitos da transformação digital como principais fatores. A reestruturação começou em 2023, com o fechamento de 55 lojas e a redução de aproximadamente 8,6 mil postos de trabalho. Em 2024 houve uma recuperação extrajudicial de R$ 4,1 bilhões. Mesmo assim, o alto custo da dívida pressionou o caixa, levando aos novos cortes em 2026. Somadas as etapas, o grupo eliminou cerca de 11,6 mil empregos e fechou aproximadamente 355 unidades, mantendo ainda mais de 20 mil funcionários e mais de 700 lojas em operação.
Outros casos de reorganização industrial
Notícias recentes também circularam sobre fechamentos e demissões em outras empresas. No caso da Electrolux, publicações afirmaram fechamento de fábrica e 2.700 demissões no Brasil.

Checagens apontam que a informação é enganosa: a multinacional sueca não tem planos de fechar unidades ou demitir em massa no país, que considera um hub estratégico e seu segundo maior mercado mundial. Os fechamentos e cortes ocorreram em unidades na Hungria, Chile e estudos na Itália. A empresa inclusive inaugurou complexo em São José dos Pinhais (PR) recentemente e mantém cerca de 7 mil funcionários no Brasil.

Sobre uma montadora japonesa (Toyota), reportagens mencionaram o encerramento da fábrica de Indaiatuba (SP) em junho de 2026, afetando cerca de 1.500 funcionários. A medida envolveu a transferência da produção do Corolla para Sorocaba, com programa de demissão voluntária ou realocação, sem demissões unilaterais segundo a empresa. Ao mesmo tempo, a Toyota investe na expansão em Sorocaba, com previsão de cerca de 2 mil novos postos até 2030 e inauguração de nova unidade. A operação no Brasil continua ativa.

Já a Volkswagen enfrenta reestruturação global diante da concorrência chinesa, com planos de fechar quatro fábricas e demitir até 100 mil trabalhadores. As unidades afetadas estão na Alemanha; as fábricas brasileiras permanecem em operação. Esses episódios ilustram pressões sobre o setor produtivo e varejista, com juros altos, mudanças de consumo e competição internacional como fatores comuns apontados pelas empresas.
O contrato com o grupo J&F

Em paralelo a esse cenário de dificuldades para diversas companhias, o governo federal preparou, no início de 2026, um contrato de 15 anos para a compra de energia gerada a carvão pela usina de Candiota (RS), controlada pela Âmbar, subsidiária do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
O valor anual estimado é de R$ 859,7 milhões até 2040, totalizando mais de R$ 12 bilhões a valor presente. O preço calculado pelo Ministério de Minas e Energia ficou cerca de 50% acima da média de leilões de energia a carvão importado. A contratação decorre de um trecho (conhecido como “jabuti”) inserido em medida provisória aprovada no Congresso e sancionada pelo petista Lula da Silva, apesar de recomendações contrárias de setores ambientalistas e da ministra Marina Silva.
O carvão é apontado como uma das fontes de maior emissão de gases de efeito estufa, o que gerou críticas em ano de discussões climáticas. O Ministério de Minas e Energia defendeu a medida por questões de segurança energética e cumprimento da legislação.
Contraste e análise
Enquanto varejistas como a Casas Bahia fecham centenas de lojas e demitem milhares para tentar sobreviver a um ambiente de crédito caro e consumo retraído, e enquanto outras indústrias reorganizam operações com impactos locais ou globais, o governo avança em um contrato de longo prazo e valor elevado com um grupo empresarial específico.
A diferença de tratamento chama atenção: empresas tradicionais enfrentam o mercado sem salvaguardas equivalentes, enquanto um acordo de 15 anos é estruturado para a geração a carvão da J&F.Essa disparidade alimenta o debate sobre prioridades.
De um lado, milhares de trabalhadores perdem o emprego em reestruturações motivadas por custos e mudanças de mercado. De outro, recursos públicos são direcionados, via contrato de energia, a um grupo com histórico conhecido. A veracidade dos números de demissões e fechamentos deve ser acompanhada com cuidado, pois parte das informações que circulam mistura casos reais (como o da Casas Bahia) com distorções sobre outras empresas.
O momento exige atenção às causas estruturais da crise no varejo e na indústria — juros, inadimplência, digitalização e concorrência — e ao mesmo tempo questiona a coerência de políticas que, na prática, beneficiam alguns atores de forma diferenciada.
A recuperação judicial da Casas Bahia e os demais movimentos empresariais mostram o tamanho do desafio; o contrato com a J&F mostra as escolhas que estão sendo feitas.
Fontes: G1, UOL, DIARINHO, FOLHA DE SÃO PAULO
*Imagem da capa gerada por IA

















