A queda no índice de solvência do maior emissor de cartões de crédito paraguaio expõe grave crise patrimonial, bloqueia recursos do governo e gera forte desgaste político sobre a gestão de Santiago Peña
O sistema bancário paraguaio vive horas de severa turbulência. Uma decisão drástica do Banco Central do Paraguai (BCP) colocou sob processo de resolução o Ueno Bank, uma das principais fintechs e maior emissor de cartões de crédito do país, paralisando instantaneamente operações financeiras, acessos a aplicativos e cartões de débito e crédito de quase três milhões de clientes — o equivalente a cerca de um em cada três habitantes da nação vizinha.
Paraguaios saem às ruas após um dos maiores bancos do país sofrer intervenção do banco central, assista:



A crise ultrapassou as barreiras do mercado de capitais e provocou uma reviravolta política de grandes proporções no início desta semana. O presidente do BCP, Carlos Carvallo — que presidiu a Financiera Ueno até agosto de 2023 antes de assumir a autoridade monetária —, renunciou ao cargo a pedido do presidente da República, Santiago Peña. A renúncia ocorre em meio a investigações sobre conflitos de interesse, falhas de supervisão e transações suspeitas dentro do banco.
O Colapso Patrimonial e as Irregularidades de Balanço
A derrocada do Ueno Bank, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, ganhou força após auditorias e fiscalizações rigorosas identificarem uma série de inconsistências graves. A fiscalização apontou operações de crédito com empresas ligadas ao próprio grupo controlador, deterioração expressiva da liquidez da instituição, falta de documentação comprobatória em concessões de empréstimos e gastos vultosos com serviços de informática desprovidos de justificativa operacional.
Após a aplicação dos devidos ajustes contábeis nas demonstrações financeiras exigidos pelos órgãos reguladores, o índice de solvência da instituição desabou, ficando abaixo de 50% do mínimo legal exigido pela legislação financeira paraguaia. Sem margem patrimonial para operar e com a capacidade de pagamento seriamente comprometida, o Banco Central teve de intervir para paralisar as atividades e nomear auditores dedicados a inventariar e proteger os ativos remanescentes.
Filas nas Agências, Desespero dos Correntistas e Aposentados
Nas ruas de Assunção e cidades vizinhas como Ñemby, a quarta-feira começou com aglomerações e momentos de forte tensão na porta de agências lacradas. Clientes e pequenos comerciantes viram-se repentinamente sem acesso ao próprio dinheiro, com o aplicativo oficial da instituição totalmente fora do ar.
A situação atinge em cheio os setores mais vulneráveis:
- Aposentados e Pensionistas: Cerca de 32 mil idosos que recebem seus proventos de aposentadoria por meio do Ueno Bank foram afetados. Embora os pagamentos deste mês estejam mantidos por estarem alocados em outra instituição custodiante, os aposentados precisarão realizar recadastramento para abrir conta em novos bancos.
- Contas Públicas de Previdência: Estima-se que entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em fundos públicos mantidos pelo governo paraguaio — incluindo reservas estratégicas do Instituto de Previdência Social (IPS) — estejam atualmente bloqueados na instituição.
- Fundo de Garantia de Depósitos (FGD): O BCP informou que os depósitos individuais têm cobertura garantida pelo FGD até o limite de 228,3 milhões de guaranis (cerca de 75 salários mínimos ou aproximadamente US$ 38 mil). O governo afirma que o teto cobre integralmente o saldo de 97% dos clientes afetados, e o primeiro ciclo de ressarcimento deve ocorrer em um prazo de até 15 dias corridos, podendo ser prorrogado por mais 15.
Pressão Política e Impacto nos Mercados
A derrocada do Ueno Bank acendeu alertas de risco soberano e abalou a imagem do Paraguai perante investidores estrangeiros, em especial os brasileiros. Títulos públicos em dólar com vencimento em 2031 e papéis da dívida soberana emitidos pelo governo paraguaio registraram queda acentuada. Na esfera internacional, o episódio provocou comparações no mercado de capitais com escândalos recentes envolvendo fraudes de concessão de crédito a empresas coligadas.
O presidente Santiago Peña buscou adotar um tom duro em pronunciamento público, afirmando que o caso do Ueno é um “episódio isolado” que não representa risco de contágio sistêmico para as demais entidades do setor bancário do país. Peña garantiu ainda que o Poder Executivo acelerou a tramitação de medidas legais para assegurar a repatriação das verbas públicas e prometeu rigor contra os executivos envolvidos:
“Os responsáveis por essas irregularidades deverão responder perante o Judiciário, estritamente sem exceções e sem qualquer tipo de privilégio.”
Apesar da fala oficial, a oposição e entidades industriais cobram transparência sobre as falhas na supervisão bancária que permitiram ao Ueno crescer vertiginosamente sob empréstimos irregulares e captação desmedida de dinheiro público. Enquanto o Banco Central avança na auditoria interna, milhões de paraguaios aguardam a liberação dos primeiros pagamentos de emergência.
Fonte: G1
*Imagem da capa editada por IA

















