Documentos extraídos pela Polícia Federal mostram a articulação direta entre o presidente do União Brasil e o então dono do Banco Master em torno de uma minuta que previa a venda de 49% da subsidiária pública com regras para garantir maioria ao grupo comprador no conselho
Registros de conversas telefônicas obtidos em investigações da Polícia Federal trouxeram à tona detalhes sobre a interferência política e empresarial na negociação envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e a venda de 49% da BRB Financeira. As mensagens revelam que o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, negociaram diretamente os termos operacionais e contratuais de uma transação avaliada em R$ 320 milhões de reais.

O negócio envolvia a cessão de quase metade do capital da subsidiária pública a um consórcio privado liderado pelo empresário aliado Paulo Rezek. Contudo, a minuta enviada por Rueda previa arranjos societários e regras de governança estruturados para transferir a gestão efetiva e a maioria dos votos no conselho de administração ao grupo comprador, mesmo este figurando nominalmente como acionista minoritário.
Estrutura Financeira e Cláusulas de Governança
A proposta trocada entre os dois interlocutores por meio de aplicativos de mensagens no início de julho de 2024 estabelecia condições de pagamento e divisão de comando consideradas atípicas para instituições sob custódia de órgãos públicos:
- Valoração e Parcelamento: A operação de alienação dos 49% da BRB Financeira previa o montante de R$ 320 milhões, divididos em dez parcelas anuais.
- Maioria no Conselho: O ponto central das tratativas regulava o acordo de acionistas, inserindo cláusulas que asseguravam maioria deliberativa e controle das decisões do conselho ao grupo privado, apesar de deter uma fatia menor que a metade do capital total.
- Composição do Consórcio: O empresário Paulo Rezek lideraria o aporte adquirindo 39% de participação, enquanto os investidores Carla Pontes e André Azin ficariam com 5% cada um.
Articulação em Brasília e Interlocução com a Presidência do BRB
Os relatórios policiais registram uma intensa rotina de encontros presenciais e recados trocados durante os dias que antecederam a formalização do anúncio do negócio. Quatro dias antes do comunicado oficial ao mercado emitido pelo BRB, a minuta de acionistas circulou em conversas diretas entre o dirigente partidário e o banqueiro.
Em 3 de julho de 2024, Daniel Vorcaro relatou estar a caminho de Brasília para se reunir com Rueda em seu endereço na capital. Em manifestações posteriores, Rueda faz menções ao sócio do Banco Master, Augusto Lima (conhecido como “Guga”), alinhando posicionamentos. No dia 5 de julho de 2024 — data exata da assinatura inicial e divulgação da parceria pelo banco estipulado na gestão do então presidente Paulo Henrique Costa —, Rueda enviou recado expresso ao dono do Master informando que o executivo do BRB precisava contatá-lo com urgência.
Objeção do Banco Central e Abortamento da Operação
Apesar das comemorações iniciais efetuadas pela diretoria executiva da instituição pública de Brasília, o avanço do acordo acabou paralisado pelas instâncias de fiscalização do sistema bancário. O Banco Central do Brasil formulou duros questionamentos à estrutura jurídica desenhada, apontando incongruências nos critérios de transferência de controle minoritário e dúvidas sobre a real origem e suporte financeiro dos aportes pretendidos.
Diante do risco de um cancelamento compulsório determinado pelo órgão regulador e com a deflagração de investigações paralelas relativas a inconsistências em carteiras de crédito vendidas entre o Master e o BRB, o consórcio comprador e o banco público anunciaram o cancelamento definitivo da operação no encerramento de dezembro de 2025.
O Que Dizem os Envolvidos
A defesa e a assessoria do presidente do União Brasil sustentaram que as comunicações do parlamentar e advogado com seus clientes gozam de proteção legal decorrente do sigilo profissional garantido pela legislação da advocacia, abstendo-se de responder sobre atuações de terceiros.
O empresário Paulo Rezek afirmou que ingressou na oportunidade societária a partir de avaliações técnicas e comerciais, mas optou por desistir do negócio após análises mercadológicas, ressaltando que o acordo jamais chegou a se concretizar na prática.
A defesa do ex-controlador do Banco Master informou que não emitirá declarações a respeito dos conteúdos de mensagens ou registros anexados aos autos das investigações.
Fonte: O Globo
*Imagem da capa editada por IA

















